Resenha: A Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso

Título: A Crônica da Casa Assassinada

Autor: Lúcio Cardoso

Publicação atual: 1999 (pela editora em questão) – Publicação Oficial: 1959

Editora: Civilização Brasileira

Número de páginas: 517

ISBN: 8520005098

Esse, galera, foi um dos livros que a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) recomendou para leitura aos candidatos que prestaram o vestibular 2009. De uma lista de cinco obras, essa era de longe a maior, com mais de 500 páginas e uma fonte de edição pequena, o que assustou, na época,  muitos alunos que não eram habituados a ler romances longos.

A minha vida toda as pessoas falavam que os livros do vestibular eram horríveis, de leitura pesada, densa e de difícil interpretação… Não sei se foi para calar as más línguas, mas ao escolher “A Crônica da Casa Assassinada” como um dos livros de seu vestibular, a UFMG realmente conseguiu mudar essa ideia de que ler para o vestibular era perder tempo lendo livros ruins.

A medida que o ano de 2009 ia passando (eu estava no 2º ano do ensino médio na época) os vestibulandos iam ficando cada vez mais animados com a leitura do livro. Alguns chegaram a criar clubes do livro, tanto virtualmente quanto nas escolas, para discutir quais seriam os próximos acontecimentos e como seria o desenrolar da história. Lembro-me de ver pessoas lendo nos intervalos, andando até para o banheiro com o livro na mão, tamanha era a ansiedade e a empolgação dos leitores com o livro de Lúcio Cardoso.  Um aluno da minha escola chegou ao ponto de ser expulso da aula de física pois estava lendo o livro debaixo da carteira durante a explicação do professor.

Eu nunca tinha visto um livro causando tamanho alvoroço nas pessoas.

Comecei então a ficar curioso acerca desse livro que estava mantendo tanta gente (muitos nem gostavam de ler) desesperada. Infelizmente os livros indicados para o vestibular disponíveis na biblioteca eram restritos aos alunos do 3º ano, que no momento, precisavam mais das obras do que o restante da escola. Mas eu não me esqueci desse livro que ficou na minha cabeça, e, ano passado, peguei na biblioteca “A Crônica da Casa Assassinada” para ler.

Eu falei tudo isso prá demonstrar  como esta história tem a capacidade de prender o leitor. Em uma escola pública (onde estudei) e em um país onde o hábito da leitura não é tão difundido, um livro ser o “assunto do momento” é coisa rara. Até os professores acharam o acontecimento um milagre. (hauhahau)

“A Crônica da Casa Assassinada”, entretanto, não é um milagre. É apenas uma história surpreendentemente bem escrita e com uma trama tão dinâmica que você simplesmente se sente um refém do autor… Na época que estava lendo eu não conseguia dormir, não conseguia estudar, não conseguia ficar sem o livro na mão. Eu chegava ao almoçar lendo (e minha mãe xingando, falando que hora do almoço não é hora prá ler rs) tamanho era a minha avidez em terminar logo o livro.

Bem, “A Crônica da Casa Assassinada” se passa no interior de Minas Gerais, em meados do século XX. No momento, as famílias tradicionais estavam começando a sucumbir diante do desenvolvimento urbano que daria origem às grandes metrópoles, e os grandes casarões perdiam pouco a pouco sua magnitude e imponência. Nesse cenário somos apresentados aos Menezes, uma família que praticamente rege a cidade local, sendo considerada a “família real” local. Apesar da pompa, os Menezes estão endividados… As terras que antes valiam tanto dinheiro estão desvalorizadas e tudo o que resta é a prataria empoeirada guardada dentro da cristaleira da sala da grande mansão.

Nesse momento de dificuldades, um dos homens da família, Valdo, retorna do Rio de Janeiro, onde tinha viajado a negócios. Porém, ele não está sozinho, e a vaidosa carioca Nina aparece ao seu lado, como esposa e nova habitante da Chácara. Com gostos extravagantes e uma beleza extraordinária, a jovem Nina rapidamente atrai a atenção dos habitantes do vilarejo… E também da família Menezes, que se sente ameaçada com a chegada da jovem dama.

A partir daí, a trama se desenrola cheia de mistérios a serem desvendados pelo leitor. Escrita de forma não-linear, os capítulos em terceira pessoa mostram pontos de vistas de personagens diferentes, de modo que não é possível confiar na verdade, pois ela é contada de maneiras oblíquoas a cada momento. Em “A Crônica da Casa Assassinada”, nunca se pode confiar no que se lê, no que se conta… Nunca se sabe se algum empregado está atrás de alguma porta, se as armas estão bem guardadas… Alguns dizem que a própria Chácara parece ter vida.

Lúcio Cardoso escreveu uma das obras mais belas e mais chocantes da literatura brasileira. Tratando de temas polêmicos como homossexualismo (o próprio autor era homossexual) e o relacionamento incestuoso, Lúcio rompeu barreiras impostas pela sociedade, sendo seu livro aclamado por muitos, porém detestado por outros no momento de sua publicação. A obra é uma viagem no tempo, para a época em que o coronelismo perdia suas raízes e o interior começava a se tornar parte dos acontecimentos urbanos.

Com personagens inesquecíveis como Nina, Valdo e Timóteo Menezes, esse livro pretende levar o leitor a uma reflexão, no qual o questionamento sobre o certo, o errado e o que é imposto pela sociedade é uma parte principal da trama. Seria o status social visto uma necessidade de sobrevivência? Até que ponto o jogo de aparências deve ser mantido para que as pessoas possam admirar a falsidade de se ter uma vida perfeita?

Eu tinha preconceitos contra a literatura brasileira: sempre tive a impressão de que os livros brasileiros eram chatos, sem toda a animação da leitura ficcional estrangeira. Foi com esse livro que aprendi que a nossa literatura apresenta valores exclusivos ao nosso país, que a nossa cultura e tradição também pode ser valorizada e que é possível passar um bom tempo lendo um calhamaço de 500 páginas escrito por um autor brasileiro. “A Crônica da Casa Assassinada” é um livro imperdível que além de entreter de forma extraordinária o leitor apresenta um papel social maior: questionar a racionalidade dos seres humanos, a valorização das emoções e principalmente, até quando a manutenção do status pode trazer uma efetiva felicidade.

Leiam esse livro, gente. Além de ser um entretenimento inigualável, nos traz reflexão sobre nossas atitudes, e a nossa posição em uma sociedade tão excludente. Vale a pena.

Acho que agora entendi porque a UFMG escolheu esse livro para seu vestibular..

.:. Abraços e até a próxima .:.

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Sobre Wesley Lopes

Criador, administrador e resenhista deste blog. Estudante de Medicina e bookaholic assumido. Também é fã de filmes, séries de TV e música.
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