Resenha: A Estrela Sobe, de Marques Rebelo

Capa da Edição atual de “A Estrela Sobe”

Título: A Estrela Sobe

Autor: Marques Rebelo

Publicação original: 1939 – Publicação pela Editora em questão: 2009

Número de Páginas: 224 páginas

Editora: José Olympio

ISBN: 8503010100

A Estrela Sobe foi um dos livros indicados pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aos alunos candidatos ao Vestibular 2011. Esse foi o último vestibular em que a UFMG indicou livros para leitura a todos os vestibulandos: em maio de 2011,  a primeira fase do vestibular da instituição foi substituída pelo Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), cujas diretrizes já incluem conhecimentos das principais obras constituintes da literatura brasileira.

Sinto-me obrigado a dizer que a UFMG não poderia ter feito melhor escolha ao eleger essa obra de Marques Rebelo como  uma leitura obrigatória para os candidatos. Como sempre, as universidades escolhem obras que consigam conscientizar os estudantes, tornando-os mais cidadãos e explorando assuntos polêmicos, de forma a estimular a formação de um senso crítico naqueles que, após alguns anos, serão os profissionais do Brasil. (Além de estimular a leitura e aumentar os conhecimentos dos jovens sobre as principais obras dos estilos literários brasileiros😀 )

Nesse contexto, A Estrela Sobe, de Marques Rebelo, cumpre de forma satisfatória o papel de demonstrar aos estudantes os vários problemas de uma sociedade excludente, onde os direitos garantidos por lei não são cumpridos de forma devida.

A Estrela Sobe apresenta como protagonista Leniza, uma jovem do subúrbio do Rio de Janeiro, que apesar de todas as dificuldades sofridas no cotidiano, possui um sonho: se tornar cantora em uma das grandes estações de rádio da cidade. A história se passa em meados dos anos 30, quando o presidente Getúlio Vargas avançava com os projetos de modernização do país, e a imprensa ganhava forças, se espalhando até mesmo para o interior do país. Assim, a instalação de bondes e a criação de centros comerciais tornavam o Rio de Janeiro uma cidade cada vez mais europeizada, sendo comparada por alguns, como até mesmo a Paris do Novo Mundo.

É importante ressaltar que Marques Rebelo constrói o retrato do local tanto de forma realista como ilusória, mostrando de variadas formas como os personagens são diretamente afetados por mudanças no ambiente. Em alguns trechos quando Leniza se sente mal (tanto psicologicamente quanto fisicamente) o ambiente é descrito de forma escura, o céu nublado e os problemas criados pelo crescimento da metrópole são ressaltados, como o grande número de pessoas circulando, a sujeira das ruas e o barulho ensurdecedor de buzinas dos carros. Em outros casos, quando a protagonista se sente bem, o ambiente é visto com um outro olhar, havendo descrição de cafeterias, de outdoors e de cartazes dos cinemas, sendo a comparação com as cidades europeias feita de forma direta, criando a ilusão de um mundo perfeito.

Existe, na história, um antagonismo entre o ambiente frequentado por Leniza e o lugar em que a personagem mora. No início do século XX, Oswaldo Cruz, um dos médicos mais importantes do país, havia se comprometido a realizar no Rio uma reforma sanitária de forma a diminuir a incidência de vetores de doenças (ratos, baratas) e para tanto, foi necessária a eliminação de muitos cortiços, que abrigavam centenas de famílias. A população desabrigada mudou-se, então, para a periferia da cidade, passando a viver nos morros: local de residência de Leniza. Marques Rebelo descreve a ida de Leniza para casa como uma subida difícil, pois o morro seria muito íngreme, não calçado. Leniza nunca voltava para a casa a noite, com medo de ser abordada por algum habitante do morro em seu caminho para casa. Dessa forma, é explorada a exclusão social já existente no início do século: Leniza trabalha na cidade e possui vergonha de confessar para seus colegas de trabalho e até mesmo para seu chefe o lugar onde reside.

Os humores dos personagens também são afetados pelo local. Leniza sente um pesar ao voltar para casa, e, além da vergonha, sonha em se mudar com sua mãe para um lugar melhor.

A medida que a história se desenvolve, Leniza consegue várias oportunidades de alcançar seu sonho. Quando conhece importantes personalidades da cidade, a sensação é de que os problemas serão resolvidos e de que o estrelato está próximo (Daí o nome: A Estrela Sobe, se refere à escalada de Leniza ao estrelato). Entretanto, os problemas estarão apenas começando: a jovem será submetida a situações extremamente constrangedoras, tudo para conseguir, com muita luta, alcançar seu objetivo.

Os problemas sociais constituem um dos principais assuntos do autor: além de ser um romance incrivelmente bem escrito, Marques Rebelo consegue trabalhar temas importantes para a sociedade de forma sutil no início, mas que vão se transformando um papel tão importante, que é quase possível considerá-los personagens da história. Incluindo assuntos como homossexualismo, pobreza e o status social como uma necessidade, o romance é uma das principais obras do modernismo brasileiro, sendo uma ótima leitura de entretenimento e de conscientização.

Eu sei que falei muito de conscientização no post, mas o livro é de fato divertido, apresenta partes de humor, suspense, e é impossível parar de ler. Sempre queremos saber se Leniza conseguirá o que consegue e como isso acontecerá. Nos comovemos em algumas partes (tenho amigos que choraram lendo) e nos vemos torcendo por algum personagem e odiando outro, tamanha é a capacidade de Marques Rebelo de envolver os leitores na trama.

A Estrela Sobe, por Marques Rebelo. Uma obra única e sensacional.

Leiam.😀

.:. Abraços e até a próxima .:.

Sobre Wesley Lopes

Criador, administrador e resenhista deste blog. Estudante de Medicina e bookaholic assumido. Também é fã de filmes, séries de TV e música.
Esse post foi publicado em Resenhas, Romance. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Resenha: A Estrela Sobe, de Marques Rebelo

  1. Melissa disse:

    Poxa, eu sempre gosto de saber de bons livros nacionais. Infelizmente muita gente ainda acha que toda literatura brasileira se resume a Machado de Assis e José de Alencar. Quando tiver a oportunidade de ler esse livro, com certeza não vou deixar passar.

    • Wesley disse:

      Melissa, o livro é muito bom.
      Eu tinha preconceito com literatura nacional, mas esse, A Crônica da Casa Assassinada (já resenhei aqui no blog :D) e alguns outros que li (não vou falar, vou fazer resenha no futuro auhahua) eu mudei minha opinião.
      Leia A Estrela Sobe mesmo, é um romance meio água com açúcar, mas se olharmos com um olhar crítico podemos ver de forma clara a intenção do autor ao escrever a história. Além disso, são 200 páginas com uma fonte gigante, dá prá ler rapidinho😀

      haha

      .:. Abraços e até a próxima .:.

Por favor, deixem os seus comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s