Resenha: Maldita, de Chuck Palahniuk

Maldita capaTítulo: Maldita

Título original: Doomed

Autor: Chuck Palahniuk

Publicação: 2014

Número de páginas: 382 páginas

Editora: Leya

ISBN: 9788544100271

Em Condenada, primeiro título de uma divertidíssima trilogia escrita pelo competente Chuck Palahniuk e há pouco resenhado aqui no blog, somos apresentados à alma penada mais irreverente e carismática do pós-vida, Madison Spencer, uma adolescente que supostamente morre de uma overdose de maconha e acaba no inferno. Em Maldita seguimos acompanhando as novas peripécias de nossa querida protagonista, desta vez em um lugarzinho desprezível de muita dor e sofrimento: o purgatório, ou, se preferirem, a Terra!!!

É isso mesmo, depois de uma noite de Halloween (o “saidão” do inferno) que deu muito errado, Madison fica presa na Terra e aproveita a situação para investigar as misteriosas condições que envolveram sua morte precoce. Não demora muito e ela descobre que, na verdade, sua fatídica saga rumo ao Hades não foi um acidente causado pela tantas vezes injustiçada erva, cannabis sativa, mas, sim, parte de algo muito maior e complexo: um grande plano apocalíptico arquitetado pelo próprio capeta para condenar ao fogo eterno toda a humanidade.

Madison se vê, então, como um peão neste jogo de proporções épicas onde, novamente, Chuck Palahniuk usa toda sua criatividade e linguagem única para construir um enredo que trabalha com dicotomias sensíveis da existência humana como céu-inferno; vida-morte, Deus-diabo; certo-errado. A trama construída em “Maldita” é mais elaborada e densa e amarra as pontas deixadas soltas no livro anterior, o que é muito divertido pois a estória vai mudando constantemente, com diversas reviravoltas inesperadas, incluindo um encontro perturbador que Madison teve com um ente querido enquanto viva e que….bem, acabou muito mal!

Se a narrativa anterior teve como cenário principal um inferno pra lá de caricatural, nesta nova aventura “purgatorial” Deus também entra na jogada e tenta trazer Madison para seu lado para evitar que a humanidade acabe condenada. Mas, aí, Madison percebe que o plano divino parece ser tão fundamentalista e cínico quanto o seu congênere “capetidiano”. Então, por meio de nossa fantasma adolescente, Palahniuk nos conduz, em muitas ocasiões, a refletirmos sobre a fugacidade da vida e, principalmente, sobre o que distingue o céu do inferno e o certo do errado. Nas entrelinhas somos levados a inferir que, no final das contas, é tudo uma questão de ponto de vista, de percepção… Será?!

O que posso dizer?! Tal qual em Condenada, aqui, em Maldita, a escrita mordaz e cáustica, marca que consagrou Palahniuk, segue dando o tom de uma narrativa cheia de provocações acerca de muitos dogmas que levamos conosco ao longo da vida. Sem querer ser redundante, este livro também segue sendo uma ótima opção de leitura para aqueles que buscam algo mais, digamos, casual, o que não significa que o livro seja superficial ou despretensioso.

Muito pelo contrário. Tendo como cenário um enredo distópico, somos convidados a sair de nossa zona de conforto e ver certas situações pelo prisma de “outras lentes” (ou perspectivas).

Como certa vez disse Sigmund Freud, “a felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz”. Parece até clichê barato de livro de autoajuda, mas é a presença implícita, no enredo da obra, desta assertiva tão trivial que faz de Maldita uma experiência única e inesquecível. Ahhhh, só mais uma coisinha. Depois de tantas introspecções, desilusões e verdades inesperadamente reveladas, nossa Madison opta em seguir o conselho do mestre Freud e tenta, assim, buscar a felicidade ao estabelecer um propósito para sua vida (vida?! Morte?! Sei lá, já não sei mais!): tomar as rédeas de sua existência. Até aí tudo certo. O problema é que para isso ela planeja levar a cabo um plano um tanto quanto, eu diria, ousado: reconciliar Deus e o capeta.

Mas, isso, caro leitor, é assunto para outra prosa (ou melhor, resenha). E o livro? Apesar de alguns atropelos na narrativa (que eu até achei propositais dado o modo de escrita de Palahniuk) e de alguns exageros meio que forçados no desenrolar dos fatos (o que também é aceitável uma vez que estamos falando de um estilo literário distópico), eu adorei! Recomendadíssimo!

Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
Esse post foi publicado em Resenhas, Romance e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

6 respostas para Resenha: Maldita, de Chuck Palahniuk

  1. Ois Cassi,

    Dá para ver pelo teu comentário que gostas da serie e que recomendas, tenho que arranjar maneira de ler😉

    Bjs

    • Cassy Teodoro disse:

      Olá, amigo Corvo! Realmente as resenhas do Fábio deixam com uma vontade enorme de ler os livros. Tenho bastante curiosidade em ler os livros do Chuck Palahniuk.

    • Fábio Albergaria de Queiroz disse:

      Caro amigo Corvo. Chuck Palahniuk é um autor cult e ficou muito conhecido depois do excepcional “Clube da Luta”, sua obra prima. Eu, particularmente, gostei bastante da série. Para uma leitura casual é mais do que recomendado, mas desde que você não se incomode com uma narrativa mais crítica e que coloque em xeque temas sensíveis como religião. Além disso, a protagonista, Madison, é uma das personagens mais incríveis da literatura fantástica.

  2. Pingback: Resenha: No Sufoco | .:.Dragonmountbooks.:.

  3. Nátia Coelho disse:

    Alguém saberia informar se o terceiro livro já foi lançado ao menos lá fora?

  4. Fábio Albergaria de Queiroz disse:

    Ainda não, Nátia. O Chuck está trabalhando em outros projetos e, por eqto, nada do desfecho da trilogia.

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