Resenha: A Música do Silêncio, de Patrick Rothfuss

A música do silêncio capaTítulo: A Música do Silêncio

Título original: The Slow Regard of Silent Things

Autor: Patrick Rothfuss

Publicação: janeiro de 2015

Número de páginas:135 páginas

Editora: Arqueiro

ISBN: 9788580413533

A Crônica do Matador do Rei, de Patrick Rothfuss, é, para muitos, uma religião, inclusive para mim. E, como um bom fiel, não poderia deixar de resenhar aqui o novo livro de São Rothfuss, “A Música do Silêncio”, um dos dois spin-offs da série, (o outro, publicado na antologia “Rogues”, é “The Lightning Tree“, sobre o Bast) apesar de a Cassy já ter feito uma ótima análise desta obra em sua versão em língua inglesa (The Slow Regard of Silent Things). Portanto, primeiramente, peço desculpas pela ousadia. Mas, se você, leitor, ainda assim, deseja seguir lendo este post, deixe-me dizer que esta foi, para mim, uma resenha muito, muito difícil de fazer, pois o livro me trouxe sentimentos contraditórios, complicados de explicar. Talvez algum psicólogo (ou psiquiatra) possa me ajudar nos comentários!!!!!

Peço, então, a você, um pouquinho de paciência, pois quando há demasiado envolvimento  com um livro, como é o meu caso com tudo o que Rothfuss escreve, às vezes é muito difícil separar a razão da emoção. Dito isso, sem delongas, os convido, então, a um passeio por essa montanha-russa, de tantos altos e baixos, chamada “A Música do Silêncio”.

Aos que conhecem o trabalho de Rothfuss, é praticamente senso comum que a Auri é uma das personagens da literatura fantástica mais emblemáticas e enigmáticas. É impossível não desenvolver empatia por ela – uma jovem de personalidade forte e marcante, mas, ao mesmo tempo, tão frágil –  ou querer saber um pouco mais de seu mundo, tão seu.

Por isso, quando este spin-off foi anunciado, fiquei muito ansioso, ávido pelo que nos viria a ser apresentado quanto à vida de nossa protagonista. E algo que imediatamente me chamou a atenção foi a lindíssima capa, uma obra-prima de Marc Simonetti, o mesmo artista que fez a arte dos livros anteriores de Pat e, também, da versão brasileira da série Mistborn, de Branson Sanderson, só para citar alguns exemplos. Em minha opinião, a ilustração de capa de “A Música do Silêncio” é a mais bela que já vi!! Até aí tudo certo, mais um ponto para a obra.

Mas, lembram-se dos sentimentos contraditórios de que falei? Pois é!…..Como posso dizer isso?! Bem, eu definitivamente não gostei do que li. Quanto ao(s) porquê(s), talvez a explicação esteja na forma como foram descritas as maneiras de agir, o cotidiano, de alguém tão complexo como Auri. Acredito que o livro poderia perfeitamente ter como título “O Diário de uma Autista”. Pessoas que sofrem de autismo são, em geral, extremamente inteligentes, mas igualmente introspectivas e reflexivas e, pela dificuldade de estabelecer contatos sociais, acabam criando um mundo próprio, só deles, onde poucos tem permissão para entrar. Alguém em mente com estas características? Sim, claro, nossa querida Auri!

E foi assim que me senti. Um completo estranho no mundo de Auri. Tive a impressão de que somente Rothfuss e, talvez, mais alguns pouquíssimos convidados pudessem percorrer com discernimento, compreensão e nitidez os tortuosos caminhos deste mundo tão paradoxal, repleto de mistérios e segredos. E aqui, devo ressaltar, Rothfuss foi muito correto e verdadeiro ao dizer, logo no início da narrativa, que este era um livro para poucos. Mesmo com suas advertências, assumi os riscos, comprei a ideia, e lá fui eu … mas, infelizmente, não tardei em perceber que não fazia parte deste seleto grupo de privilegiados.

Ainda assim, por mais estranho que possa parecer, não quero dizer, com estas minhas colocações, que a narrativa seja ruim. Muito pelo contrário. A estória é poética, profunda, emotiva e, como diz o título, o silêncio da Auri é audível, musical. Até gosto de narrativas introspectivas, mas desde que sejam inclusivas, como feito, por exemplo, pelo genial José Saramago em “O Mito da Caverna”, obra em que ele transporta para o mundo moderno, com todos seus complexos paradoxos, a famosa alegoria platônica de prisioneiros que desde o nascimento são acorrentados no interior de uma caverna de modo que olhem somente para uma parede iluminada por uma fogueira! Simplesmente o máximo, sobretudo, porque o leitor se sente plenamente imerso no contexto!

Mas, deixando Saramago um pouco de lado, para uma outra prosa, o que posso dizer é que, para minha decepção, não foi essa introspecção convidativa que encontrei na narrativa de Rothfuss. Achei-a tão excessivamente metafórica e extrassensorial que, por vezes, me perdi, e o pior, sem ninguém para me conduzir pelos Subterrâneos da Universidade, “pelo fundo bem profundo das coisas”. Além disso, o livro traz mais dúvidas do que respostas sobre quem é Auri. E, aqui, novamente, devo destacar a sinceridade de Rothfuss. Ele também alerta seus leitores de que a estória nada tem a ver com os eventos ocorridos em “O Nome do vento” e “O Temor do Sábio”, muito embora, a leitura de ambos os livros seja essencial para entendermos os meandros ocultos do mundo de Auri.

Enfim, talvez você, assim como eu, ache a estória confusa e desconcertante. Mas, se não, se você, como certamente muitos outros, conseguir se identificar com o estilo narrativo tão singular de Rothfuss neste livro, ao ponto de nele ver a perfeita luz a te conduzir ao mundo de Auri, como dito, tão seu, “A Música do Silêncio” poderá ser uma experiência inesquecível.

Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
Esse post foi publicado em Fantasia e Ficção Científica, Resenhas, Romance e marcado , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

15 respostas para Resenha: A Música do Silêncio, de Patrick Rothfuss

    • Fábio Albergaria de Queiroz disse:

      Vagner, achei que ia tomar um monte de porrada aqui! rs! Mas vejo que realmente há muitos outros, como nós, que não gostaram do que nos foi apresentado em A Música do Silêncio. Não sei se vc já leu “The Lightning Tree“, sobre o Bast. Neste conto temos o bom e velho Patrick Rothfuss de volta, tal qual em o Nome do vento e O Temor do Sábio. Este, sim, é um conto que vale a pena ser lido.

      • vagnerstt disse:

        Esse conto eu não li ainda, tenho ele aqui traduzido mas não separei um tempinho pra ler. Vou tentar agora nessa semaninha do Carnaval, porque A Música do Silêncio não deu pra engolir mesmo. ahushasuhuahs

  1. Ainda quero ler, mas acho que também não será pra mim.

    • Cassy Teodoro disse:

      Vale a pena conhecer mais sobre a Auri e não só aquilo que o Kvothe contou.

    • Fábio Albergaria de Queiroz disse:

      Caro Adriano. Realmente não sei o que te dizer. Se te digo para ler, porque, afinal, foi o Pat Rothfuss que escreveu, ou se te digo para não ler pois realmente achei o texto fora dos padrões da boa literatura fantástica! Este é um daqueles livros que ou você ama ou você odeia! De qualquer maneira, vale a pena dar um voto de confiança a ele (eu acho)!

  2. Luciana disse:

    Também não foi um livro feito para mim. A impressão que eu tive é que não estava lendo uma obra do mesmo autor….

    • Fábio Albergaria de Queiroz disse:

      Poxa, pois é, Luciana!! Realmente é uma pena! Eu criei muita expectativa pelo livro, comprei na pré-venda. Acho que se eu tivesse lido o livro, mas esperando menos, as coisas talvez fossem diferentes. Mas é difícil, né, sobretudo depois de O Nome do Vento e O Temor do Sábio!

  3. Ois,

    Espero poder ler este livro em breve, pois gosto muito do Rofhuss e claro da personagem Auri

    Excelente comentário, parabens🙂

    • Fábio Albergaria de Queiroz disse:

      Olá, amigo Corvo! Rothfuss é, ao lado, de Brandon Sanderson, um dos grandes nomes da literatura fantástica. Eu também gosto muito dele. Espero que você goste mais de A Música do Silêncio do que eu! Depois que você ler, passe por aqui e nos diga o que achou! Abraços

  4. silviua destro rosa wedekin disse:

    O livro realmente é diferente na narrativa, as vezes um pouco cansativo na nominação de tudo, mas entendendo como um mundo particular de uma pessoa solitária, fica mais fácil, Quando li o livro “Quarto” a personagem dava nome a tudo e assim foi com Auri, o que reforça sua solidão e a necessidade honesta de respeitar tudo que no mundo ali existe como é e a preocupação que estejam “felizes”. Há uma simplicidade nela incrível. Aprende – se a gostar no decorrer da narrativa. Vale a pena conferir, mesmo com o estranhamento inicial.

    • Fábio Albergaria de Queiroz disse:

      Este realmente é um ponto de vista muito válido, sobretudo, aos que, como você, tem essa sensibilidade. De qualquer maneira, este é um livro muito peculiar, que ressalta a natureza humana em seus aspectos mais introspectivos, como os momentos de solidão e isolamento de Auri. Talvez, por isso, ele não tenha tido tanto acolhimento entre os amantes da literatura fantástica clássica, o que, de maneira alguma, significa que o livro seja ruim. Trata-se, meramente, de uma questão muito pessoal, de gosto.

  5. carolina disse:

    Estou lendo A Música do Silêncio e ainda não descobri se estou gostando ou não, meus pensamentos ainda estão meio contraditórios. Alguém sabe alguma coisa sobre o lançamento do terceiro livro?

    • Fábio Queiroz disse:

      Carolina, a previsão é de o terceiro livro, The Doors of Stone, seja lançado no fim do ano nos EUA. Portanto, aqui no Brasil, muito provavelmente só ouviremos falar dele em meados de 2016…e olha lá!

Por favor, deixem os seus comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s