Resenha: O Circo Mecânico Tresaulti, de Genevieve Valentine

O Circo Mecânico Tresaulti capaTítulo: O Circo Mecânico Tresaulti

Título Original: Mechanique: A Tale of the Circus Tresaulti

Autora: Genevieve Valentine

Publicação: 2013

Número de páginas: 312 páginas

Editora: Darkside

ISBN: 9788566636161

Intitulada Freak Show, a quarta temporada da série American Horror Story (AHS) narrou as aventuras sombrias de uma trupe circense de “aberrações” na pequena e pacata cidade interiorana de Júpiter, na Flórida dos anos 1950. Com a dose certa de humor e drama, foi diversão garantida aos amantes de seriados fantásticos, como eu, e, certamente, muitos que nos leem. Mas, antes que você se pergunte se algo está errado, deixe-me dizer que não, você não está em um blog sobre programas de TV (este é o bom e velho Dragonmountbooks!!!) Então, o que AHS tem a ver com a resenha de hoje?! Bem, depois de assistir ao último episódio da temporada, aproveitei a vibe “dark-circense” que estava rolando e decidi ler um livro que havia colocada há algum tempo em minha lista de leitura: O Circo Mecânico Tresaulti, de Genevieve Valentine.

E que bela surpresa foi esta leitura! Publicada no Brasil em 2013 pela Darkside, devo dizer que o livro segue o já conhecido alto padrão de qualidade deste selo que, sem dúvida, prima pela excelência de seus livros (não estou ganhando “jabá” da Editora…é que seus livros realmente são primorosos!). Alguns aspectos merecem nota, ainda que breve, dentre eles, o marcador de páginas personalizado (que acompanha o livro) na forma de um ingresso, convidando o respeitável público, ou melhor, os leitores, a uma viagem extraordinária por um mundo onde não há limite entre o picadeiro e a plateia! E as ilustrações?! São belíssimas, um show à parte: lúdicas e, ao mesmo tempo, magicamente insinuantes.

Vencedor do Crawford Award 2012 e indicado ao prêmio Nebula, um dos mais importantes da literatura fantástica, O Circo Mecânico é uma fantasia sombria que tem como cenário um mundo pós-apocalíptico devastado por uma guerra de proporções épicas. Fronteiras já não existem mais, as cidades remanescentes foram reduzidas a ruínas, algo comparável a pequenas comunidades tribais rudimentares. Pouco restou para nos trazer lampejos da civilização que outrora existira. E o fascinante Circo Mecânico Tresaulti é um destes resquícios de humanidade, ainda que com suas muitas, digamos, excentricidades.

Devo alertá-lo, amigo leitor, desde já, que esta é uma leitura peculiar, uma narrativa  distópica (mistura de realidade, fantasia e algumas doses de ficção científica, quase sempre para fazer uma forte crítica social), todavia elegante, poética e misteriosa. E nesse sentido, a estória cumpre perfeitamente seu intento. Comandado pela enigmática Boss, o circo é uma oportunidade de recomeço para alguns dos sobreviventes deste mundo caótico. Os artistas que integram a trupe Tresaulti são personagens muito especiais, geralmente pessoas mutiladas pela guerra (tanto física como psicologicamente) e que, nas mãos sobrenaturais de Boss, ganham novos corpos pós-humanos, movidos a engrenagens, placas de ferro, pulmões de relojoaria, rodas, pistões, enfim, toda sorte de quinquilharia! Desta metamorfose quimérica surge algo novo, porém inquietante aos olhos, fascinante, porém, sombrio.

Uma vez na trupe, seus nomes antigos, que não sabemos quais eram, são abandonados. É como se, tal qual a mitológica Fênix, estes seres humanos/mecânicos renascessem das cinzas. E é, assim, que das vidas pregressas dos agora Ying, Nayah, Panadrome, Bird, Elena, Big Tom e Big George, Stenos, dentre outros muitos, praticamente nada resta. E aqui vem um dos pontos altos da obra. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que os personagens são transformados em algo nunca visto e sentido antes, eles deixam de ser o centro exclusivo da narrativa. Desprovidos de tudo que tinham antes, eles praticamente são reduzidos a emoções e nós passamos a entendê-los assim, pelos sentimentos marcantes que ainda lhes restam: dúvida, raiva, angústia, esperança, submissão, indiferença, força, amizade…e, neles, como em espelhos, nós, muitas vezes, nos enxergamos com notável nitidez. É realmente um deleite ver várias cenas construídas a partir destes sentimentos em sua conotação mais visceral!

Outro ponto muito interessante é que, por ser uma obra distópica, como dito, há uma forte crítica social. Na narrativa há um personagem “sem rosto”, genericamente chamado de o homem do governo. E esta figura amorfa, retratada como a manifestação da opressão social, revela-se um ser quase onipresente, que vê na trupe uma ameaça, seja em que cidade estiver o circo, e por um motivo trivial: a simples presença de Boss e seus artistas é capaz de romper a monotonia monocromática que faz com que a vida das pessoas seja, simplesmente, cinza. Ao trazer cor, alegria, fascínio, e outros sentimentos há muito reprimidos, teme-se que algo inesperado e humano renasça: a capacidade de sentir.

Enfim, devo dizer que este não é um livro comum. Apesar de reunir vários ingredientes indispensáveis a uma boa prosa literária, sua narrativa é muito peculiar, escrita para um público peculiar, e para ser lido em momentos igualmente peculiares. Desculpe-me a redundância cacofônica do que acabei de escrever, mas se, com isso, consegui chamar sua atenção para uma última divagação, então, dou-me por satisfeito. O que quero dizer é que este é um livro que a cada página nos convida a refletir sobre os meandros da existência humana em seus aspectos mais primitivos sendo, o principal deles, a luta pela sobrevivência. Portanto, apesar de eu ter gostado bastante, esta, talvez, não seja a leitura que muitos buscam, por exemplo, por mero entretenimento ou casualidade. Ela é muito mais do que isso! Em outras palavras, deixe-me sintetizar, a você, o que esta leitura significou para mim: um verdadeiro presente … para a alma!

Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
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2 respostas para Resenha: O Circo Mecânico Tresaulti, de Genevieve Valentine

  1. Ois,

    Estou a ver que tenho que arranjar em versão digital, tem muita coisa boa a ser publicado por ai, parece ser um livro do meu agrado🙂

  2. Fábio Queiroz disse:

    Olá, amigo corvo! O livro não é excepcional, mas, mesmo assim, como eu disse, ele pode ser um belo presente para a alma se lido com olhar mais introspectivo e filosófico. Eu, particularmente, gostei bastante e recomendo!

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