Entrevista com Enéias Tavares, o criador da série Brasiliana Steampunk

Queridos leitores, é com muito orgulho que nós, do Dragonmountbooks, trazemos para vocês uma super entrevista com Enéias Tavares, autor do aclamado A lição de anatomia do temível Dr. Louison, obra vencedora do concurso literário organizado em 2014  pela Leya Brasil e que vem colecionando incontáveis elogios, tanto de fãs como da crítica especializada. Aos que não conhecem (ainda) esta surpreendente obra, a resenha encontra-se disponível aqui no blog. Quanto à mente responsável por Brasiliana Steampunk, série da qual Lição de Anatomia é o primeiro volume, Enéias Tavares mora em Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul, e leciona Literatura Clássica na Universidade Federal de lá. Nas horas vagas, gosta de correr na pista da universidade, beber vinho com amigos e escrever romances e contos retrofuturistas. Aqui, perguntamos ao autor sobre suas influências literárias, suas ambições artísticas e sobre os temas da sua produção ficcional.

Enéias Tavares e A Lição de Anatomia do Dr. Louison.

Enéias Tavares e A Lição de Anatomia do Dr. Louison.

Tudo bem, Enéias?

Tudo bem, Fábio. Muito feliz em conversar com vocês da Dragonmountbooks sobre Brasiliana Steampunk e meu trabalho como escritor.

Você é professor de literatura clássica na Universidade Federal de Santa Maria. Nos fale um pouco sobre sua trajetória acadêmica, suas predileções literárias e como a literatura entrou em sua vida.

Sou filho único e meus pais mudaram muitas vezes de cidade quando eu era criança. Vejo esse background como responsável por dois fatores determinantes à minha formação. Primeiro, uma solidão intensificada pelos constantes reinícios, que sempre dificultavam novas amizades. Segundo, uma fascinação por histórias e, em especial, por histórias em quadrinhos, que lia e colecionava enquanto meninos de minha idade estavam na rua correndo ou jogando futebol. Não quero dizer com isso que eu me tornei um misantropo, pelo contrário, mas a necessidade de encontrar soluções para passar o tempo e os poucos amigos que tive despertaram minha imaginação de um modo bem intenso. Na adolescência, enquanto descobria cinema e música e corria atrás das primeiras namoradas, ocorreu a passagem das HQs para os “autores sérios.” Nesta época, decidi me tornar professor de literatura e levei minha paixão até a pós-graduação, trabalhando com Shakespeare no mestrado e com William Blake no doutorado. Até hoje, oscilo entre autores clássicos e populares e acho que Brasiliana Steampunk reflete essa duplicidade. De um lado, a série remete aos heróis da nossa literatura brasileira clássica; de outro, reinventa esses heróis num cenário de ficção científica, como é o steampunk. Meus dia a dia divide-se entre esses dois eixos: em minha casa, tenho duas bibliotecas. Uma, com os autores e teóricos com os quais trabalho na academia e outra, mais divertida e multicolorida, composta de romances contemporâneos de fantasia, terror e ficção científica, além das minhas obras gráficas prediletas, escritas por autores como Neil Gaiman, Alan Moore e Garth Ennis.

Como foi participar e ter vencido um concurso de literatura que reuniu mais de mil participantes?

Foi incrível. Ainda hoje, passado quase um ano, é meio inacreditável. Quando o concurso da Fantasy teve início, não havia finalizado o romance. A divisão do concurso em três fases motivou e muito a conclusão do manuscrito. Na medida em que passei dos primeiros estágios – no primeiro, resumir a ideia numa frase de 140 caracteres e no segundo, num parágrafo de 1200 – fui intensificando a escrita, muitas vezes passando madrugadas inteiras diante do computador. Num determinado momento, lá por Abril de 2014, eu parecia um figurante de Walking Dead, o que divertiu muitos alunos e colegas de departamento. Uma professora me perguntou, por exemplo, se as festas estavam boas. Eu sorri e silenciei, uma vez que não queria ainda sair do armário com o meu lado escritor. Depois do resultado do concurso, expliquei a todos os motivos das olheiras e da palidez de alguns dias. Nada a ver com festas… felizmente! Em resumo, foi uma oportunidade única e só tenho a agradecer pelo profissionalismo do curador do selo, Affonso Solano, e a toda a equipe da Casa da Palavra. O concurso deu rumo às minhas ambições literárias e desde então tem sido maravilhoso.

Você escreveu ‘Lição de anatomia’ para participar do concurso ou já vinha trabalhando anteriormente no texto? Nos conte um pouco sobre a origem de ‘Lição de anatomia’ e de onde veio a ideia de trabalhar com personagens tão icônicos de nossa literatura.

Gosto de imaginar a escrita deste romance como a composição de uma pintura. Primeiro, havia o protagonista, Louison. Depois, ao lado dele, esbocei seu oponente, Britto Cândido. Depois, comecei a me preocupar com o cenário e com outros elementos da pintura. Foi daí que surgiu a idéia de Porto Alegre dos Amantes, dos personagens da literatura brasileira e outros personagens inéditos, sendo a principal delas Beatriz de Almeida & Souza. Acho que a versão de Diego Cunha para “A Lição de Anatomia do Dr. Tulp”, de Rembrandt, com os heróis de Brasiliana Steampunk, ilustra um pouco isso. Eu comecei a trabalhar no romance ainda em 2009, com um conto, que virou o Interlúdio Dramático da versão final, e que apenas contava com Louison e Quental. Em 2010, ampliei o conto e o transformei numa novela, na qual Pedro Cândido foi introduzido. Quanto à forma final do romance e a inclusão dos heróis da literatura brasileira, bem como o cenário steampunk, isso ocorreu quando retornei ao projeto, em 2013, meses antes de saber do concurso da Fantasy/Casa da Palavra. O concurso foi o grande motivador para finalizar o romance. Não sei se teria investido tanto do meu tempo entre abril e maio de 2014 se não fosse o prazo para o envio do manuscrito.

A Lição de Anatomia do Dr. Louison.  Arte de Diego Cunha

A Lição de Anatomia do Dr. Louison.
Arte de Diego Cunha

Em seus primeiros manuscritos, você já vislumbrava o que viria a ser o produto final de ‘Lição de anatomia’ ou o texto foi tomando forma durante o processo de escrita?

Ele foi tomando forma com o tempo. No início, Louison era um amalgama de Hannibal Lecter e Dorian Gray, sendo o vilão abjeto do ponto de vista moral e atraente do ponto de vista estético. A grandiloquente e um tanto tola novela de 2010 tinha até um subtítulo, que era “Da Arte como Amoralidade”. Depois, com a inclusão dos heróis da literatura nacional, comecei a achar tudo aquilo muito pretensioso e entediante e pensava que Louison apenas poderia ser respeitado pelo leitor se ele tivesse uma motivação crível para seus crimes. Foi daí que entrou sua relação com Beatriz e todo o enredo de vingança que envolve o passado dela e os horrores perpetrados pela Camarilha da Dor. Foi ao escrever a quinta parte do romance, que tem ela por narradora – isso três dias antes de enviar o manuscrito para o concurso! – que percebi que a história havia crescido em apelo emocional. E isso tem a ver com meu processo criativo, que nunca é totalmente planejado. Eu não consigo escrever sabendo todos os detalhes do que ocorrerá. Por uma simples razão: eu, como o leitor, preciso da surpresa, preciso da insegurança de não saber exatamente onde vou chegar com a escrita. Se não for assim, se for algo seguro e detalhado, sem surpresas ou conclusões inusitadas, caio no sono. E para mim, literatura é aquilo que não te faz dormir, aquilo que te mantém acordado.

Por falar em escrita, seu livro tem sido bastante elogiado, dentre outros motivos, pela criatividade e originalidade do texto. Qual a importância da escrita criativa em um enredo que traz para um cenário steampunk personagens clássicos da literatura brasileira?

Desde o início, me coloquei o desafio de estar o mais próximo possível da linguagem dos autores que homenageei. Não queria apenas usar os nomes de personagens como Isaías Caminha, Simão Bacamarte ou Rita Baiana, por exemplo. Desejava que tais heróis falassem como suas contrapartes literárias originais. Então, num primeiro momento, fiz um estudo detalhado de vocabulário, sintaxe, estrutura frasal, entre outros elementos, para que o romance tivesse não apenas um grande elenco de personagens como também grande variedade estilística. Alguns leitores estranham um pouco a linguagem mais densa da primeira parte, cujo narrador é Caminha. Mas eu precisava dele para ambientar a trama e detalhar o cenário. Há um salto entre essa primeira parte, decadentista e hiper detalhista, como criada por Lima Barreto, e a sórdida velocidade irônica do Simão Bacamarte da segunda parte, até chegarmos na terceira seção do romance, que mescla mais de oito vozes diferentes, que vão desde o discurso informal de Rita Baiana até a sonoridade mais taciturna de Vitória Acauã, entre outros. Acho que esse cuidado, apesar de ter dado muito trabalho, é responsável pela dinamicidade da narrativa como um todo, até chegar às vozes das personagens inéditas da segunda metade: a linguagem detetivesca de Britto Cândido, a construção narrativa mais épica de Beatriz e o requinte argumentativo de Louison, que arremata o romance.

Certamente, para um autor, os personagens de seus textos são como filhos. Sei que é difícil eleger um dentre tantos personagens tão singulares, mas, há algum “filho(a)” por quem você tenha um carinho “mais especial”?

Sem dúvida, Beatriz de Almeida & Souza é o grande ganho do romance para mim, apesar de ter um carinho por cada um dos personagens. Mas antes dela, ‘Lição de Anatomia’ apresentava um enredo previsível sobre elegantes assassinos em série. Depois dela, o romance se tornou uma heróica busca por superação, força e paixão. Quanto aos demais, Rita Baiana me comove de um modo bem particular. No que concerne aos demais heróis, tenho afeição pelos aventureiros do oculto, o casal Sergio Pompeu e Bento Alves, e os problemáticos Solfieri de Azevedo, no universo de Brasiliana Steampunk um satanista imortal, e Vitória Acauã, uma médium indígena criada por Inglês de Souza no seu Contos Amazônicos, de 1893, além, é claro, do risível Doutor Benignus, o primeiro cientista louco da nossa literatura. Não por coincidência escolhi esses cinco personagens como protagonistas do segundo volume da série, que terá por foco a origem do Parthenon Místico e sua batalha contra a opressiva Ordem Positivista e a então corrupta Igreja do Crucificado.

O Variado Elenco de Personagens de Brasiliana Steampunk Arte de Jéssica Lang

O Variado Elenco de Personagens de Brasiliana Steampunk
Arte de Jéssica Lang

Na resenha publicada aqui no blog, um dos pontos que destaco em ‘Lição de anatomia’ é a maneira humana e, por vezes, poética como você trabalha temas sensíveis como relações homoafetivas, escravidão, corrupção, hedonismo. Fale-nos dos motivos que te levaram a trilhar este caminho.

Primeiramente, Fábio, gostaria de te agradecer por tocares neste ponto. Eu também apreciei muito a sua resenha por causa disso. Como ‘Lição de Anatomia’ apresenta uma paleta bem variada de cores e personagens, alguns de seus temas mais importantes acabam ficando um pouco em segundo plano. Aqui, novamente, recorro aos autores originais e suas obras. No que concerne ao abuso do poder, seja ele estatal ou administrativo, no caso de uma casa de alienados, ou ao preconceito contra relações homoafetivas ou o problema da escravidão no Brasil, mesmo depois da abolição, ou ainda uma estrutura social essencialmente misógina, todos esses temas já eram contemplados, direta ou indiretamente nas obras de Machado de Assis, Aluízio de Azevedo, Lima Barreto e dos outros autores que releio em Brasiliana Steampunk. O que fiz foi atualizar esses temas a partir da nossa sensibilidade contemporânea, adicionando a eles outros assuntos que continuam merecendo atenção, como nossa relação com as máquinas, os limites da representação da violência, a igualdade étnica e de gênero, e a velha dicotomia entre magia/religião e ciência. O que me fascina na obra de autores como Anne Rice, Neil Gaiman e, sobretudo, Alan Moore, é a forma como eles conseguem, mesmo trabalhando com histórias populares, tratar desses e outros assuntos de forma séria e responsável. Acho que todo escritor tem uma responsabilidade social com sua obra e tal responsabilidade o obriga a tratar desses e outros assuntos, por mais delicados que sejam. Não quero dizer com isso que minha literatura tem caráter panfletário ou pedagógico. Antes, que tento inserir nela muitas das discussões relevantes, do ponto de vista social ou cultural, que encontramos em nosso meio e, portanto, em nossa literatura, desde sempre.

Como seus fãs e, também, aqueles que estão te conhecendo agora podem obter maiores informações não apenas sobre ‘Lição de anatomia’, mas sobre você e seus projetos futuros?

Tenho uma página pessoal no Facebook onde posso ser facilmente contatado. Além disso, temos uma página exclusiva sobre Brasiliana Steampunk (www.facebook.com/brasilianasteampunk), que convido a todos a visitar e a curtir, caso gostem dos materiais disponibilizados ali e o site oficial da série (www.brasilianasteampunk.com.br), onde os leitores e leitoras encontrarão uma expansão do universo da série com fichas de personagens, artes, capítulos e contos inéditos e um tarot exclusivo, baseado nos heróis da série. Indico aos interessados o conto “Bento Alves & O assalto ao Templo Positivista”, ilustrado por Jéssica Lang e disponibilizado gratuitamente no site da série.  De minha parte, ficarei bem contente em responder dúvidas ou saber o que o público tem achado de ‘Lição de Anatomia’. Acho que vivemos um momento bem especial no caso da produção literária nacional, não apenas pela grande variedade de obras e autores que encontramos nas livrarias, como também pela diminuição da distância entre o leitor e seu escritor ou escritora favorita. Em minha opinião, todos só têm a ganhar com essa proximidade.

Bento Alves & O assalto ao Templo Positivista Conto Inédito e Prelúdio de Lição de Anatomia. Capas de Diego Cunha e Jéssica Lang

Bento Alves & O assalto ao Templo Positivista
Conto Inédito e Prelúdio de Lição de Anatomia. Capas de Diego Cunha e Jéssica Lang

Para encerrar, que dicas você pode dar para aqueles que também têm o sonho de ver uma obra publicada?

Nunca parem de ler e de escrever. Cada livro é um aprendizado temático e estilístico. Cada novo autor que conhecemos é um universo de sensibilidades e de visões de mundo. Também é fundamental estudar a própria sensibilidade a ponto de saber do que se gosta e do que não se gosta e o porquê disso. Por outro lado, escrever, assim como qualquer outra arte, é muito mais trabalho árduo do que ser visitado pela musa. Assim, escrevam, escrevam e escrevam. E depois, reescrevam. Nunca terminamos esse processo e, às vezes, ele chega à beira do suplício. Mas se estamos falando de arte e do respeito que devemos ter pelos leitores, devemos buscar ao máximo a qualidade daquilo que ofertamos ao público. Também indico as oficinas de escrita criativa, que estão se tornando mais e mais comuns em nosso país, bem como a presença em eventos nos quais podem encontrar escritores. Essa interação é fundamental como motivação. Por fim, nunca estejam satisfeitos com o texto e não tenham medo de receber sugestões e conselhos. Aceitar a correção por parte de um leitor especializado não é uma questão de humildade e sim de inteligência. Nunca esqueci essa frase, que é de autoria de Luis Antonio de Assis Brasil. Acho que meu percurso como escritor começou verdadeiramente ali, na sua oficina de escrita criativa, quando escutei essa frase.

Enéias, a equipe do Dragonmountbooks agradece a sua disposição em conversar conosco.

Foi um prazer conversar com vocês, Fábio, e estou à disposição para futuros diálogos como esse. Espero que continuem se divertindo com Brasiliana Steampunk como eu tenho me divertindo escrevendo essas histórias. Tem sido uma aventura e tanto. Grande abraço.

Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
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