Resenha: Pinóquio, de Vincent Paronnaud

Pinóquio capaTítulo: Pinóquio

Título original: Pinocchio

Autor: Winshluss/Vincent Paronnaud

Publicação: 2010

Número de páginas: 190 páginas

Editora: Globo Livros

ISBN: 9788525051684

Hoje, gostaria de compartilhar com vocês, amigos leitores deste digníssimo blog, as impressões que tive de um livro totalmente insano, inusitado, perturbador… e genial! (e olha que, até agora, estou tentando encontrar os adjetivos certos para defini-lo). Fiquei tão chocado com o que li que pensei muito, muito mesmo, antes de fazer esta resenha. Só fiz porque é para o Dragonmountbooks, um lugar único, dedicado àqueles incapazes de resistir à magia literária. Todavia, como este também é um espaço democrático, devo alertá-los que, até então, nunca tinha lido nada igual e que, muito provavelmente, esta não seja a melhor indicação a você que não gosta de narrativas excessivamente ácidas, críticas (e cínicas) ou, ainda, àqueles que buscam apenas um entretenimento casual. Portanto, daqui para frente, é por sua conta e risco!

Digo isto porque esta é uma narrativa que ultrapassa todas as fronteiras perceptivas convencionais. Vocês têm alguma ideia de que livro estou falando? Não?! Bem, a obra em questão é Pinóquio! Isto mesmo que você leu! Mas, diferentemente do eterno clássico infantil escrito em 1883, pelo italiano Carlo Collodi, esta versão é completamente distópica e desafiadora! Escrita por Winshluss, pseudônimo usado por Vincent Paronnaud, a trama nos mostra um protagonista assustadoramente sombrio, um reflexo do que há de mais obscuro na natureza humana, muito diferente do boneco de madeira original que, nas mãos do mestre carpinteiro Gepeto, ganhou vida e encantou crianças e adultos de várias gerações.

Antes de entrar na narrativa, primeiramente, gostaria de enaltecer a excelência do trabalho gráfico e editorial feito pela Globo Livros, selo que assina a obra. Em uma impecável edição de capa dura, a estória se desenvolve em formato HQ. As ilustrações são de um detalhamento incrível e a estética dos desenhos é o melhor resultado que se poderia esperar de uma miscelânea de técnicas como: grafite, aquarela, caricatura, tiras jornalísticas. E as páginas, o que dizer delas? São bem grossas, quase da textura de uma cartolina. Simplesmente, fenomenal! Outro ponto que não posso me abster de mencionar refere-se à maneira como é contada a aventura de Pinóquio ao longo das 190 páginas do livro.

Certamente, você, alguma vez, já ouviu a expressão: “uma imagem vale mais que mil palavras”. Aqui, isto é literalmente verdade. A trama é contada quase exclusivamente por meio de imagens que eu definiria, sem nenhum exagero, como hipnotizantes. E o mais impressionante é que elas são de uma profundidade e riqueza tais que, muitas vezes, nos pegamos boquiabertos, buscando explicações para as mensagens que são passadas nas entrelinhas de seus traços artísticos. Os textos existem, mas quase exclusivamente nas reflexões feitas por Jiminy, a barata, um ser abjeto que vive, literalmente, dentro da cabeça de Pinóquio. Jiminy seria uma versão deturpada do caricatural Grilo falante! Ele é um show à parte, meu personagem favorito!!

Dito isto, vamos, então, ao que realmente interessa! O alter ego steampunk do Pinóquio apresentado por Winshluss/Paronnaud é uma máquina de guerra que, em suas andanças por locais sórdidos, entra em contato com o que pode haver de mais desprezível em uma sociedade decadente: violência, ganância, corrupção, crueldade, preconceito, luxúria, desprezo. E tudo começa quando Gepeto vai em busca de possíveis compradores para sua “bem sucedida” cria. Ele, então, deixa Pinóquio aos cuidados de sua esposa, Svetlana Gepeto (é isso mesmo, o nome dela é SVETLANA!!!). Ela, então, uma mulher deprimida, sexualmente mal resolvida e, em busca de “diversão”, resolve fazer de Pinóquio seu, digamos, brinquedinho para assuntos extraconjugais. Só que as coisas saem do controle (afinal nosso querido protagonista é uma arma letal) e Svetlana acaba morrendo (e de uma maneira epicamente cômica).

Pinóquio sai de casa, sem rumo, e Gepeto se torna o suspeito número um deste terrível suposto homicídio. A partir de então ele, Pinóquio, enfrenta uma jornada cheia de perigos. E o Gepeto, coitado! Nem vou contar a vocês o que esse cara fez para tentar recuperá-lo e, ao mesmo tempo, apagar o rastro de destruição deixado para trás. Hannibal Lecter (interpretado pelo inigualável Anthony Hopkins, em o Silêncio dos Inocentes) ficaria morrendo de inveja (do Gepeto)!

A partir daí, Pinóquio conhece a escória da humanidade: desde um industrial que explora a mão de obra infantil (e para quem ele trabalha em regime de escravidão) a implacáveis caçadores de recompensas e mendigos usuários de drogas. Lá pelas tantas ele tem até um inesperado encontro com uma Branca de Neve pós-moderna e seus sete anões sadomasoquistas (gente, é sério, esta estória é muito louca!!!!)..

Pinóquio

Na medida em que o enredo se desenvolve, novos personagens igualmente marcantes e únicos surgem, cada qual à sua maneira, e, aos poucos, seus destinos vão se cruzando de maneiras inesperadas, e dá pior forma possível. E é, então, que vemos o ápice do talento e genialidade de  Winshluss. Ele nos conduz rumo a um desfecho surpreendente, em que as duas versões da estória de Pinóquio se encontram e, magistralmente, dão forma a algo totalmente novo deixando, ao fim, uma ponta de esperança em meio ao caos criado pela decadência e luxúria humanas. Enfim, resumidamente, o que posso dizer a vocês é que este livro destruiu as saudosas memórias de minha já distante infância e que nunca mais verei o Pinóquio da mesma maneira….o problema (ou não) e que eu adorei isso!!!!

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Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
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