Resenha: Melodia do Mal, de John Ajvide Lindqvist

Melodia do Mal capaTítulo: Melodia do Mal

Título original: Lilla Stjärna/Little Star

Autor: John Ajvide Lindqvist

Publicação: 2014

Número de páginas: 485 páginas

Editora: Tordesilhas

ISBN: 8584190023

Sabe quando o trailer é muito, mas muito melhor que o filme, ou quando a propaganda é mais interessante que o produto? Pois bem, esta foi a impressão que tive do livro Melodia do Mal, de autoria do sueco John Ajvide Lindqvist. Quando o vi na livraria fui logo fisgado pelos muitos adjetivos propagandísticos que ressaltavam suas supostas qualidades, prática esta tão comum, hoje em dia, nas capas dos livros como forma de auto promoção. Ele é definido como brilhante, um futuro clássico do terror! E, quanto ao autor, Lindqvist é laureado como um dos melhores escritores de terror, o “Stephen King” sueco. Aí já viu, né? Golpe baixo, tive que comprá-lo, pois, uma comparação deste nível nos deixa com as melhores expectativas.

Ademais, venho nutrindo uma profunda simpatia para com a literatura nórdica. Realmente há autores maravilhosos, como o fenômeno dinamarquês Jussi Adler-Olsen, autor da aclamada série policial “Departamento Q” que, no Brasil, teve seus dois primeiros volumes publicados: A Mulher Enjaulada (este livro é, simplesmente, fenomenal) e A Caça (lançado este mês pela Record). Portanto, dar um voto de confiança a Lindqvist me pareceu mais do que razoável! Galerinha, mas, se arrependimento matasse, eu provavelmente não estaria aqui a resenhar este … deixa pra lá!!!!

Bem, vamos aos fatos. A ideia por detrás do enredo é até bem interessante, devo admitir, mas a execução! Hummm! Deixou muito a desejar, para dizer o mínimo. A narrativa gira em torno da estória de Theres, abandonada quando ainda recém-nascida. Ao ser encontrada em um bosque por Lennart, um músico decadente, logo fatos muito inusitados mudariam a vida dele, de sua família e, claro, de nossa protagonista/antagonista. Theres tem uma voz hipnotizante, sem igual, e as simples notas que saiam de seus pequenos pulmões eram puras e perfeitas, inegavelmente um dom extraordinário. Em Theres, então, Lennart viu a derradeira chance de conseguir resgatar tudo que houvera deixado há muito para trás: sua dignidade como homem (sua esposa e parceira musical, Laila, o traiu com um vocalista de uma banda rival!) e seus sonhos, dentre os quais, a possibilidade de sucesso no competitivo mundo musical da Suécia.

Contudo, apesar de seu talento miraculoso, a Pequenina, como Theres é inicialmente chamada, é incapaz de demonstrar emoções. Ela cresce trancafiada em um porão, isolada do mundo, e, na medida em que se desenvolve, fica cada vez mais evidente sua natureza amorfa, desprovida da noção, mesmo que mínima, de bem e mal, certo e errado, amor e ódio, dor e prazer…Apesar da estranheza da situação, cada um, a seu modo, lidava com a presença de Theres da melhor maneira possível até que um dia seu irmão, Jerry, ao visitá-la, se depara com uma cena grotesca por ela protagonizada. É então que tudo muda, inclusive os rumos de suas vidas, e para um ponto sem volta, forçando-os, então, a praticamente viver na clandestinidade.

Aqui, há um grave problema no desenvolvimento da trama. Em 128 páginas parece que a estória já estava totalmente contada. Mas, então, do nada, Lindqvist começa uma estória paralela, de uma jovem chamada Teresa: uma figura lúgubre, marcada pela rejeição e indiferença. Teresa nos é apresentada desde sua infância, em seus mínimos detalhes, até o momento em que, na adolescência, seu caminho se cruza com o de Theres. A forma como a ligação entre os dois enredos é feita é muito confusa, eu diria até forçada, o que, de forma alguma, contribui para manter o interesse do leitor. Isso se torna crônico ao longo de todo o texto, o que nos faz perceber que das 485 páginas do livro, 250, no mínimo, são facilmente descartáveis, pura enrolação. Um saco!!!!

Tá, tudo bem, pensei eu! Tudo pode melhorar (ou piorar, infelizmente). Como estabeleci a leitura deste livro como meta de resenha para o blog, fui em frente, firme, mas com uma vontade louca de jogá-lo pela janela. Querem saber por que? Theres cresce, se torna uma bela jovem e se inscreve, com um nome falso, Tora Larsson, no programa Ídolos (isso mesmo, aquele programa tipo reality show que busca novos talentos na música!). Theres, claro, acaba chamando a atenção de muita gente por sua inigualável habilidade vocal, inclusive, de um caça talentos, de índole moral questionável, chamado Max Hansen. Temos, então, uma nova clivagem na estória que levará, passadas mais algumas centenas de páginas inúteis, ao desfecho do livro, rotulado, na propaganda de capa, de “apocalíptico” mas que, pelo menos para mim, não foi nada mais do que algo desagradavelmente sem noção.

O que dizer! Realmente este é um daqueles livros que facilmente esquecerei, e que, eu espero, seja muito em breve. Achei-o fraco, com uma narrativa confusa e excessivamente prolixa, repleta de cenas apelativas, sobretudo as de conotação sexual. Levei mais de um mês para lê-lo, tempo que, normalmente, levo para ler dois livros de tamanho semelhante. Enfim, sem delongas, e direto ao ponto, este foi o pior livro que li nos últimos anos. Uma pena, pois, como disse, a ideia era boa e poderia, se trabalhada com mais esmero, ser, tal qual alardeado na propaganda de capa, um novo clássico do terror. Mas, infelizmente, terror foi eu ter me atrevido a lê-lo.

Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
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5 respostas para Resenha: Melodia do Mal, de John Ajvide Lindqvist

  1. Cassy Teodoro disse:

    O único trabalho do Lindqvist que quero ler é Deixa ela entrar. Assisti às duas adaptações e gostei muito.

    • Fábio Queiroz disse:

      Realmente, Deixa ela entrar, parece ser a obra-prima de Lindqvist, tanto que virou um fenômeno cult. A história que deu origem ao filme foi publicada em 2004 e imediatamente se tornou best-seller. Eu acho que vale a pena, mas, no meu caso, primeiro preciso me recuperar do trauma que foi Melodia do Mal. Acho que tão cedo não lerei outra obra do autor.

      • Cassy Teodoro disse:

        Verdade, virou uma fenômeno cult, mais ou menos como foi com Entrevista com o vampiro.

        Entendo o que é ficar temeroso em ler outra obra de um autor que decepciona as nossas expectativas. rsrs

  2. Maurilei disse:

    Estão empacados na minha estante do autor, Deixa ela entrar e A maldição de Domaro. Pelas resenhas que li Deixa ela entrar é muito bom. Tenho que ler uma hora dessas.

    bomlivro1811.blogspot.com.br

    • Fábio Queiroz disse:

      Maurilei, eu também só li coisas boas a respeito de Deixa ela Entrar. Mas não pretendo furar minha fila de leitura com outra obra de Lindqvist. Fiquei um tanto decepcionado com a experiência que tive com Melodia do Mal.

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