Resenha: República de Ladrões, de Scott Lynch

República de Ladrões capaTítulo: República de Ladrões

Título original: The Republic of Thieves

Autor: Scott Lynch

Publicação: 2015

Número de páginas: 540 páginas

Editora: Arqueiro

ISBN: 9788580413915

Caríssimos viciados em livros, faz pouco tempo que a Cassy trouxe a resenha de The Republic of Thieves, o terceiro livro da série Nobres Vigaristas, do genial Scott Lynch. Pois bem, resolvemos repetir uma experiência que vem dando muito certo: comparar nossas impressões de livros em suas versões em inglês e português, por isso, para vocês, respeitáveis amigos deste digníssimo blog, eis a resenha de República de Ladrões, versão tupiniquim. Mas, antes de começar, peço licença apenas para um breve comentário: como ficou linda a capa da edição brasileira! Sensacional! Caramba, se eu não dissesse isso não iria sossegar. Agora, sim, feitas as devidas considerações, vamos, então, ao que interessa.

Não é surpresa nenhuma o fato de o Scott Lynch ser um dos autores top da literatura fantástica atual. Seu primeiro livro, “As mentiras de Locke Lamora”, foi um sucesso estrondoso de crítica, e com todos os méritos. Como disse George Martin, esse foi um dos melhores livros que ele havia lido na vida e eu faço destas minhas palavras. Simples assim, uma preciosidade, com um enredo meticulosamente construído, e com um final surpreendente. Depois, mantendo um nível bem próximo, tivemos o fantástico “Mares de Sangue”, um livro mais introspectivo que nos mostrou o quão profunda era a amizade entre Locke e Jean, mesmo diante de eventos que colocaram seriamente em risco a parceria entre os dois.

Então, para o deleite dos fãs, a Editora Arqueiro, selo responsável pela série no Brasil, lançou rapidinho República de Ladrões. Não deu nem tempo de sentir saudades! Pontaço para a Arqueiro!!! E o que esperar desta vez?! Bem, neste volume, os nobres vigaristas se envolvem em um jogo extremamente perigoso, para variar! À beira da morte e praticamente prestes a entregar os pontos, Locke é compelido por seu fiel escudeiro, Jean, a aceitar uma oferta de trabalho de seus arquirrivais – os Magos-Servidores – em troca de um doloroso processo de remoção do veneno que quase o matara em “Mares de Sangue”… e o pior, sem garantia de que daria certo (até parece que o Scott iria matar o Locke né galerinha! Ele não é o George Martin, graças a Perelandro, o deus dos ladrões!!) .

Sem opção, Locke aceita a proposta e, depois de uma excruciante, e bem sucedida, “intervenção ritualística” que lhe trouxe de volta ao mundo dos vivos, eles partem para cumprir sua parte no acordo. O desafio? Fraudar o chamado “Jogo dos Cinco Anos”, eleições que ocorrem, como diz o nome, a cada cinco anos para escolher os políticos que compõem o Kartenium: o parlamento que governa, Kartane, a cidade dos Magos-Servidores. Caberá a Locke e a Jean manipular os votos necessários para garantir a vitória do partido Raízes Profundas, o preferido da facção dos Magos-Servidores a que responde Locke.

Mas as coisas se complicam quando nossa adorável dupla é informada que à favor do partido rival, o Íris Negra, estará atuando com igual propósito, mas a mando de uma outra facção de magos, a única pessoa capaz de igualá-los em perspicácia e artimanhas. Ela é Sabeta Belacoros, antiga integrante dos nobres vigaristas e a pessoa por quem Locke nutre um amor avassalador. Tem início, então, um jogo de gato e rato, com várias reviravoltas incríveis e hilárias, o que nos garante incontáveis momentos de diversão e deliciosas risadas.

Em meio a essa intriga política, Scott nos traz interlúdios em que somos levados ao passado de nossos protagonistas para entendermos mais um pouco da estória dos nobres vigaristas, sobretudo, claro, de Locke e Sabeta. É bem interessante o quanto estes dois são parecidos com Kvothe e Denna, das Crônicas do Matador do Rei. O cara amarradão, lambendo o chão por onde anda a mulher pela qual ele tem uma devoção quase divina, mas sem conseguir tê-la plenamente, uma espécie de amor platônico e, ela, fazendo pouco caso ou escondendo seus verdadeiros sentimentos (se bem que com Locke e Sabeta é um pouco diferente, eles dão uns bons amassos). Esta parte do livro, que se intercala com o enredo principal, é igualmente interessante pois, nela, são revelados os porquês de Locke ser chamado de o Espinho de Camorr; os motivos que levaram Sabeta a subitamente deixá-lo, a origem dos Magos- Servidores, enfim. Ela também nos traz uma nostalgia incrível, pelo menos foi o que senti, ao relembrar as vigarices dos saudosos Calo, Galdo e Padre Correntes.

Bem, apesar de ter me divertido bastante na leitura, este foi, em minha opinião, o livro menos brilhante de Lynch. Um dos motivos é bem lógico. Esta é uma série prevista para ter sete livros e, depois dos dois primeiros, muitas pontas ficaram soltas, por isso, a necessidade de amarrá-las de forma a não perder o rumo da estória e incorrer, assim, no risco de tornar este fantástico enredo algo potencialmente confuso. De forma alguma isso significa que a estória seja desinteressante ou entediante, afinal, estamos falando de Scott Lynch que, diga-se de passagem, passou por maus bocados em sua vida pessoal enquanto trabalhava neste livro, o que ajuda a entender estas minhas colocações.

De qualquer forma, eu senti falta do dinamismo eletrizante típico dos livros antecessores, ou da genialidade dos planos mirabolantes arquitetados para dar um grande golpe, ainda que a trama feita para fraudar as eleições tenha sido bem interessante e igualmente improvável de acabar em coisa boa. Todos estes ingredientes de sucesso que deram tão certo nos dois primeiros livros também estão presentes em “República de Ladrões”, mas, sei lá, não com a mesma pegada. Também achei a participação dos Magos-Servidores na narrativa um tanto confusa, sobretudo, nos eventos ocorridos nos últimos capítulos. Por outro lado, para compensar, segredos inesperados são revelados, velhos inimigos reaparecem, assim como incertezas do passado, tudo para deixar a narrativa totalmente em aberto.

Indiscutivelmente, este livro reforça a minha impressão, ou melhor, convicção, de que Locke é um daqueles personagens atemporais e inesquecíveis, cativantes de um modo único e diferente. Não tem como não torcer por ele, a empatia é automática! Por fim, vale lembrar que a continuação da série, “O Espinho de Emberlane”, tem previsão de lançamento para o fim deste ano nos Estados Unidos, mas, a julgar pelo excelente trabalho da Editora Arqueiro, creio que não tardará para que tenhamos em mãos esta obra que promete, e muito. Vida longa aos nobres vigaristas!

Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
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10 respostas para Resenha: República de Ladrões, de Scott Lynch

  1. Maurilei disse:

    Fábio, excelente análise. Em minha opinião República dos Ladrões também está um pouco abaixo dos dois primeiros volumes da série, mas mesmo assim se trata de um livro muito bom. Que venha o próximo volume, que acredito eu será melhor que este, ainda mais se for bem explorado o gancho deixado neste final, que para mim é a melhor conclusão até agora da saga.

    bomlivro1811.blogspot.com.br

  2. Fábio Queiroz disse:

    Maurilei, vc tem razão. Acredito que se o próximo livro continuar a partir deste gancho vai ser muito interessante, com muito derramamento de sangue. Eu também estou apostando muito que ele tem tudo para ser o ápice da série. Um ponto que esqueci de mencionar é que acho que a tradução deixou um pouco a desejar. Lá no final, qdo Paciência menciona o quadro de Lamora a Sabeta, ela diz que o quadro estava coberto por um pano. Já qdo ela fala do mesmo quadro a Locke e Jean, ela diz que estava embrulhado em papel. Ainda que sutil, este descompasso fez toda a diferença para o correto entendimento da decisão tomada por Sabeta, O que vc achou desta parte? Vc também teve esta impressão?

    • Maurilei disse:

      E não é que para mim passou despercebido este problema da tradução ? Na verdade a minha atenção e memorização que tenho na leitura não são das melhores. Vou dar uma olhada nesta parte final.

      bomlivro1811.blogspot.com.br

  3. Fiacha disse:

    Viva Fábio,

    Excelente resenha, ainda tenho este livro por ler, mas já o tenho no Kobo, pois infelizmente deste lado do atlântico apenas publicaram o primeiro volume, vale que está a ser publicado por ai🙂

    Pode ser um livro de transição e dai não ter estado tão bom como os anteriores, mas fiquei com muita vontade de ler

    Abraço

    • Fábio Queiroz disse:

      Grande amigo Fiacha! Uma pena que pelas terrinhas lusitanas somente o primeiro volume tenha sido publicado. Mas esta é uma daquelas séries que a cada página lida fica um sentimento de perda..de que o livro logo, logo vai acabar. Não dá para ficar muito tempo longe dos nobres vigaristas.Certamente você vai gostar bastante de Mares de Sangue e, claro, de República de Ladrões que, também, é muito bom, mas, como você disse, por ser um livro de transição, fica um pouquinho para trás em relação aos dois primeiros.
      Abraços tupiniquins.

  4. Esse foi o “menos bom” dos três livros, mas ainda assim é sempre interessante se ler algo na escrita do Scott Lynch. O humor negro, as partes que nos fazem dar risadas, tudo está aí, só que não em um grau tão elevado como nos dois livros anteriores. Mesmo assim, é uma leitura que vale a pena, ainda mais com as peripécias de Galo e Caldo, pra mim os dois mais engraçados desse 3º livro!

    http://desbravandolivros.blogspot.com.br/2015/05/resenha-republica-de-ladroes-scott-lynch.html

    • Fábio Albergaria Queiroz disse:

      Vagner, concordo em gênero, número e grau com você! Os diálogos cáusticos, daqueles que só vemos em final de semana em um barzinho, são um show. Muitas vezes eu ficava imaginando como aquelas falas poderiam se transformar em ação e aí eu me pegava rindo convulsivamente. Cara, isso, só o Scott Lynch sabe fazer! Calo e Galdo também são um show à parte, ainda que apenas em flashbacks. E o final, então?! Macabro! Ao que parece, eu acho teremos muito derramamento de sangue em Espinho de Emberlane, do tipo que vimos no primeiro livro!

  5. Elen disse:

    Eu tbm achei o terceiro meio estranho, a parte dos magos foi extremamente confusa, algumas passagens foram meio massantes mas em contrapartida eu rachei de rir em mtas partes. Cm relação a tradução, não foi só nesse q tve escorregada não, tve uma bem evidente no primeiro livro, eles não traduziram o nome Correntes, deixaram Chains em uma passagem. Fiquei chateada pela capa do meu exemplar do República ter se soltado completamente sozinha. Estou me coçando pelo próximo livro, apns!

    • Fábio Queiroz disse:

      Oi Elen,

      Concordo totalmente! O Scott Lynch teve problemas sérios com um quadro de depressão, talvez isso tenha influenciado a queda da dinâmica narrativa. Mesmo assim, tenho enorme expectativas quanto ao Espinho de Eberlane. Só espero que a narrativa não perca o fôlego, como já aconteceu com várias séries promissoras.

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