Resenha: Brasyl, de Ian McDonald

Brasyl capa originalTítulo: Brasyl

Autor: Ian McDonald

Publicação: 2007

Número de páginas: 366 páginas

Editora: Prometheus Books

ISBN: 9781591028222

Vencedor do British Science Fiction Association de 2007, na categoria melhor romance, Brasyl se passa obviamente no Brasil e conta as histórias de três personagens em três diferentes períodos de tempo.

A ideia do autor foi mostrar o presente, o futuro e o passado de forma paralela, apresentando ao leitor, em cada capítulo do livro, um Brasil diferente (não é spoiler, galera, as sinopses original e brasileira, deixam isso claro). Os títulos de cada capítulo foram muito bem sacados pelo autor, pois representam algo relacionado à nossa cultura religiosa, ao mesmo tempo em que tem a ver com a história do livro.

Dois desses períodos de tempo acontecem no século XXI. Um deles acontece no 2006, na cidade do Rio de janeiro, ano de mais uma Copa do Mundo. A produtora de TV do Canal Quatro, Marcelina Hoffman, quer produzir um reality show sobre uma personalidade da Copa de 1950. Esse ano representaria o momento presente da trama, mas como acabei lendo livro somente agora em 2015, o que representa mais de dez anos, a história contada nessa parte me despertou um momento nostálgico. Não sei se seu poderia dizer que ler algo que acontece em 2006 seria como ler um livro de ficção histórica, mas para mim foi quase isso.

O outro período retrata um Brasil do futuro, pois acontece entre os anos de 2032 e 2033, na cidade de São Paulo, onde acompanhamos o personagem Edson, um empresário caça-talentos e o seu envolvimento com o submundo da computação quântica.

Ambos períodos são muito bem ambientados em seus respectivos cenários urbanos, embora o autor não perca muito tempo da narrativa em worldbuilding. Os aspectos e problemas sociais brasileiros, além da nossa cultura, incluindo a nossa cultura popular, acabam servindo muito bem à narração e são muito bem contextualizados dentro do que o autor se propôs a nos contar. Algumas coisas chegam a ser tão próximas da realidade brasileira que dói ver o quanto o autor chegou perto de retratar um país com tantos problemas e ainda assim visto como muito como um país que representa o futuro.

Para quem conhece ou se interessa em conhecer o Brasil, fica bem claro que determinados comportamentos ou situações sociais não são características somente da realidade brasileira. Porém, em alguns trechos, o autor se valeu de estereótipos e isso me incomodou um pouco. Mesmo assim, a leitura não foi perdida por isso, afinal, Brasyl é um livro de ficção. E retratar a realidade com um toque de ficção e uso de estereótipos acontece até com livros cujo cenário são os Estados Unidos ou outro local.

O terceiro e último período se passa no século XVIII, entre os anos de 1732 e 1733, ou seja, quando o Brasil ainda era colônia de Portugal. O leitor acompanha o padre jesuíta irlandês Luis Quinn, que vem ao Brasil como um missionário e recebe a missão de encontrar o Padre Diego Gonçalves e viajar junto com um filósofo que pretende fazer um experiência na linha do equador.

Essa foi a parte que mais gostei de ler. A boa ambientação dos locais onde se passa a história, o fanatismo religioso, o bom e velho embate entre Religião e Ciência, a questão da escravidão, o desconhecimento sobre território brasileiro que ajuda a criar um certo misticismo quase herege sobre a cultura e as lendas indígenas foram muito bem usados pelo autor na trama e criou uma excelente narrativa que mistura muito bem os elementos da fantasia e da ficção científica com aqueles da ficção histórica.

Durante a leitura, não deixei de pensar em como o autor conseguiria – ou se iria – unir as três narrativas. O que o Ian faz não chega a ser surpreendente, mas acaba por tendo um bom efeito na trama e gostei do resultado.

Quanto à escrita, eu gostei, embora tenha achado que em algumas partes, a narração parecia cortada e algumas frases não soaram muito condizentes com a personalidade do personagem. No geral, o estilo de escrita é muito bom. O texto apresenta muitas palavras em português, a maioria realmente eram necessárias, outras, nem tanto. Infelizmente, muitas palavras apresentavam a grafia errada, não sei se de propósito ou por falha na edição. Nada que comprometa o entendimento da trama, mas que dá um aspecto feio ao texto.

O desfecho é muito bom, não chegou a surpreender. Achei que faltou explicações mais detalhadas sobre os conceitos científicos apresentados pelo autor. O final em aberto cria uma sensação de que a história poderia ter tido uma continuação.

Entre estereótipos e fatos reais sobre o Brasil, tirando os erros do autor, que, repito, não comprometem o desenvolvimento e o entendimento da história, o livro é muito bom e recomendo a leitura.

.:.Abraços e até a próxima.:.

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Sobre Cassy Teodoro

Administradora e resenhista deste digníssimo blog. Aes Sedai da Ajah Verde, Curadora das Crônicas da Torre Branca e fiel ao Lorde Dragão Rand al'Thor.
Esse post foi publicado em Fantasia e Ficção Científica, Ficção Histórica/Romance Histórico, Romance e marcado , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Resenha: Brasyl, de Ian McDonald

  1. Maurilei disse:

    Livro muito interessante, fiquei curioso para saber mais !

    bomlivro1811.blogspot.com.br

  2. Fiacha disse:

    Ois Cassy,

    Fico contente que tenhas gostado, li esse livro e adorei e o mais curioso é que o escritor veio a Portugal a um evento estive bem perto dele e nem me apercebi que era ele rsrs

    Um livro que comprei bem barato 3,5€ e que valeu bem a pena

    Faço minhas as tuas palavras, recomendado 🙂

    bjs

    • Cassy Teodoro disse:

      Oi, amigo Corvo! Como assim não reconheceu o autor? rsrs Brincadeira, perfeitamente compreensível. Eu nem sei se eu mesma o reconheceria; rs

      Eu gostei muito do livro, achei que o autor encaixou muito bem as questões sociais, culturais e históricas do Brasil com a trama de ficção científica proposta.

      Bjos!

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