Resenha: A Noiva Fantasma, de Yangsze Choo

A noiva fantasmaTítulo: A Noiva Fantasma

Título original: The Ghost Bride

Autora: Yangsze Choo

Publicação: 2015

Número de páginas: 347 páginas

Editora: Darkside Books

ISBN: 9788566636277

O que nós, viciados em livros, fazemos durante uma longa viagem? Lemos, claro!! Pois é, escolhi como companhia para uma viagem de trabalho o badalado “A Noiva Fantasma”, romance que marca a estreia da jovem Yangsze Choo no mundo literário e, também, um dos lançamentos deste segundo semestre da competentíssima Darkside. Ouvi, e li, muito sobre a qualidade da narrativa, sobre a irresistível natureza cativante da protagonista, Li Lan, dentre outras coisas bastante interessantes que contribuíram para fazer deste livro um retumbante sucesso de público e crítica. Ademais, pesou nesta escolha o fato de ser um livro da Darkside que, reconhecidamente, prima pela excelência de suas publicações. Bastou ver a beleza da capa e pronto, para mim foi o suficiente. Então, lá fomos nós, eu e minha Noiva Fantasma.

Mas….meus caros, me arrependi amargamente, na mesma proporção de minhas expectativas, fazer o que! Esse, sem dúvida, foi um dos livros mais enfadonhos que li no ano, apesar de ser eu, creio, uma das pouquíssimas vozes destoantes em meio a tantos elogios que referendam esta obra. Mas sabe quando você e o livro permanecem em uma vibração diferente, sem aquela conexão química tão necessária quando mergulhamos em uma leitura? Foi o que aconteceu ao longo das suas 347 páginas: éramos dois estranhos falando línguas diferentes. Por fim, acabei lendo-o por falta de companhias melhores, afinal, não tive tempo de parar em uma livraria em busca de outras alternativas!

Pois bem, vamos, então, à narrativa onde explicarei, paralelamente, os porquês de minha decepção. Tudo começa em 1893, em Malaia (até então, o nome pela qual era conhecida a península malaia que, atualmente, corresponde a Malásia e Cingapura). Nossa protagonista, como antecipado, é Li Lan: uma belíssima jovem criada no rígido sistema social asiático em uma época em que a tradição e os costumes eram parte indissociável do cotidiano. No entanto, apesar de ser de uma família de reconhecida linhagem, o que era determinante para o sucesso, Li Lan vive momentos difíceis por conta da grave situação financeira pela qual passa seu pai e que acabou colocando a família, praticamente, à beira da falência.

Para tentar remediar esta situação, Li Lan receba uma proposta de casamento que, como era comum à época, desenhava-se a partir de arranjos feitas pelos parentes dos pretendentes e com base nas possíveis compensações financeiras para a família da noiva. Seu noivo, Lim Tiang Ching, era o primogênito de uma das famílias mais ricas e influentes da cidade. Até aí tudo certo, não fosse o “pequeno” inconveniente de ele já ter morrido! Pano de fundo deste enredo, o casamento entre mortos e vivos era uma prática muito comum na Ásia do século XIX, sobretudo na China e na Malaia, como uma forma de aplacar, acreditava-se, a ira de espíritos de pessoas que morriam muito cedo, sem ter a oportunidade de constituir uma família ou deixar herdeiros.

Ao aceitar o acordo nupcial, o preço a ser pago poderia ser muito alto: a noiva abdicava de todos os prazeres que uma vida normal poderia lhe proporcionar, no entanto, em contrapartida, ela garantia a tão almejada estabilidade financeira. E com Li Lan não foi diferente. Mas, é claro, as coisas não poderiam ser tão simples assim, né. Apesar de a princípio ter concordado com a proposta, ainda que a contragosto, Li Lan acaba se apaixonando por Tian Bai, primo e grande desafeto de seu futuro marido-zumbi, espírito amante zombeteiro … sei lá como chamá-lo!!! O noivo defunto, chamemo-lo assim, ficou puto da vida, afinal, além de estar morto, corria sério risco de ser um corno no além, e o pior, de seu arqui-inimigo!

É, então, que ele, o noivo defunto, começa a visitar Li Lan em seus sonhos para persuadi-la a não desistir do matrimônio. A partir daí, começa uma louca aventura que acaba levando-a, em decorrência de um fortuito acidente, para o mundo dos mortos onde ela trava uma luta desesperada para voltar aos braços de seu amado, Tian Bai, enquanto, ao mesmo tempo, tenta desvendar os mistérios em torno da súbita e inesperada morte de Lim Tiang Ching. Aos poucos uma conspiração tramada pelas autoridades do que seria o inferno começa a desvelar-se e, tudo isso, com a suposta participação do noivo defunto. Aqui cabe um breve adendo que poderá ser determinante na escolha de ler, ou não, o livro: este cenário fantástico foi fortemente construído a partir das crenças orientais sobre o pós-vida, algo que tive muita dificuldade de assimilar, talvez pela minha irreparável implicância com Li Lan, que achei super chata. Logo, não fiz o mínimo esforço para tentar gostar da narrativa, o que tornou a leitura ainda mais arrastada! Contudo, aos que apreciam as peculiaridades da rica cultura oriental, certamente este livro é um prato cheio!

Voltemos, agora, à narrativa. Enquanto vagava pela Planície dos Mortos (uma espécie de purgatório onde os espíritos aguardavam seu julgamento) em busca de respostas, Li Lan contou com a ajuda de um personagem muito misterioso – Er Lang – cujas ações tiveram um papel muito importante no desenrolar da estória. Neste ínterim, surgem como personagens desta trama criaturas mitológicas, demônios, mortos-vivos … em uma estória que, eu, particularmente, achei super psicodélica. Parecia, muitas vezes, que Yangsze Choo, a autora, tinha consumido muita cannabis sativa (maconha, para os íntimos!!!), e das bravas. Li Lan, apesar de ser, pelo menos nas aparências, a moça recatada do interior, chega, no fim das contas, sem saber o que fazer com tantas opções amorosas à sua disposição. E, assim, temos espírito querendo dar uns pegas nos vivos, seres mitológicos assanhados também querendo tirar umas casquinhas e, claro, os vivos sem-vergonha jogando dos dois lados.

Galerinha, enfim, apesar de muitos pontos da narrativa prenderem minha atenção, sobretudo, quanto ao futuro da protagonista que em diversas ocasiões colocou-se em situações inusitadas que, perigosamente, levaram-na ao limiar entre a vida e a morte, no geral, eu tive a sensação de estar lendo um romance esotérico asiático, estilo Sessão da Tarde, própria dos roteiros pastelões que assombram a programação da TV aberta.

Sinceramente, e com todo o respeito à diversidade de opiniões, não sei como tantas pessoas gostaram deste livro, mas aí está a graça: uma mesma narrativa despertar sentimentos tão contraditórios, abrindo espaço para momentos deliciosos como este, onde dividimos nossas impressões, anseios, expectativas e, no meu caso, frustrações. Bem, paremos por aqui para evitar spoilers. Mas, se você se interessou pela estória de Li Lan e decidiu se aventurar pelas páginas de A Nova Fantasma, lembre-se: eu não gostei, mas há várias opiniões que colocam este livro no patamar de obra-prima, de nova face da literatura fantástica e outras coisas do gênero, logo, esta é uma daquelas estórias sem meios-termos, ou você ama ou odeia. Portanto, caros amigos do blog, vocês terão que ler para tirar suas conclusões, e não se esqueçam de, depois, dar uma passadinha aqui para compartilhá-las.

Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
Esse post foi publicado em Fantasia e Ficção Científica, Resenhas, Romance, Suspense/Terror e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Resenha: A Noiva Fantasma, de Yangsze Choo

  1. Pingback: EI Indica - A Noiva Fantasma - EU INSISTO! : EU INSISTO!

  2. Angel Sakura disse:

    A graça dos livros é justamente essa, a variedade de opiniões. E eu amo os blogs literários justamente por isso, eles conseguem separar os pontos que pra uns são bons e para outros ruins. Talvez por eu ser muito ligada na cultura asiática (mangás, contos, doramas e filmes) a sensação foi como de rever um amigo antigo, e muito do dito eu já tinha pre imaginado na cabeça. (sério, eis a minha Li Lan http://orig14.deviantart.net/65db/f/2010/131/5/c/bride_of_water_god_wallpaper4s_by_tessa_ef.png ) eu recomendo o Dorama MAsters Sun caso queira conhecer um pouco mais da cultura asiática <3)
    No mais adorei sua resenha, foi muito boa e com um ponto de vista que acrescenta naqueles que pretendem ler. Obrigada por ter partilhado conosco.

    http://www.euinsisto.com.br

  3. Fábio Queiroz disse:

    Nós, do dragonmountbooks, é que agradecemos imensamente por seus comentários. E, de fato, é muito legal esta troca de opiniões. E a art de Li Lan ficou o máximo! Foi vc que fez?!!! Bem, voltando ao livro, eu realmente fiquei bastante decepcionado. Mas, claro, respeito, e muito, sua opinião.
    Forte abraço

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