Resenha: O Protegido, de Peter V. Brett

O Protegido capaTítulo: O Protegido

Título original: The Warded Man

Autor: Peter V. Brett

Publicação: 2015

Número de páginas: 508 páginas

Editora: Darkside Books

ISBN: 9788566636499

Fantástico é o único adjetivo que me vem à cabeça para descrever O Protegido, primeiro volume da série Ciclo das Trevas, de Peter V. Brett. Desde o anúncio de que esta fantasia épica seria publicada no Brasil pela Darkside Books eu vinha nutrindo grandes expectativas sobre ela … todas elas confirmadas. E foi com os ingredientes esperados de uma trama fantástica – magia, morte, traições inesperadas, mais morte, demônios, segredos, mistério, religião, mais um pouquinho de morte – que o Protegido chegou mostrando suas credenciais para firmar-se, com todos os méritos, como uma das mais importantes referências da literatura do gênero na atualidade.

Inicialmente pensada para ser uma trilogia, O Ciclo das Trevas, dado seu sucesso de público e crítica, já vai para seu quinto volume. E, de fato, e sem nenhum exagero, temos em mãos algo grandioso, totalmente viciante, aquele tipo de livro que todo escritor sonharia em escrever e que todo apreciador de uma boa estória sente-se compelido a ter em sua estante (mesmo que seja só para ter). Então, sem demoras, vamos à narrativa.

Nosso cenário, pelo que as evidências sugerem, é um mundo pós-apocalíptico (esse fato não está explícito, é apenas a impressão que tive) há muito devastado por um mal inominável que a incontáveis gerações vem oprimindo o que dele restou. Reféns do caos, os sobreviventes, dispersos em pequenas cidades e aldeias, vivem em constante medo pois, ao cair da noite, demônios famintos, conhecidos como terraítas, surgem de todos os cantos, ávidos em busca de carne humana. A única forma de defesa de que as pessoas dispõem, além da luz do dia, é um complexo sistema de símbolos que devidamente alinhados conseguem produzir uma forma de magia, de origem desconhecida, capaz de impedir o avanço dos demônios, como uma espécie de barreira invisível.

Tendo este contexto sombrio como pano de fundo somos, então, apresentados aos protagonistas principais do livro: Arlen, Leesha e Rojer, três jovens que tem em comum um passado de muito sofrimento e dor. Arlen viu seu mundo desabar quando presenciou, ainda criança, a morte brutal de sua mãe por um terraíta e a covardia de seu pai que foi incapaz de intervir, preferindo salvar-se. Com um sentimento insaciável de vingança, sua vida mudará definitivamente quando, à beira da morte nas areias do deserto krasiano, Arlen descobre as ruínas do que seria uma cidade antiquíssima, até então uma lenda, que guardava segredos desconhecidos da civilização de outrora.

Rojer, o mais jovem dos três, igualmente vê seus pais serem dizimados pelos demônios da noite sendo, graças ao sacrifício de sua mãe, o único sobrevivente da família. Ao conhecer um menestrel que passava por sua cidade ele ingressará em uma jornada inesperada que o levará a aventuras que colocarão em prova suas convicções. Já Leesha é uma jovem lindíssima e que tinha uma vida pacata até uma mentira contada por Gared, seu noivo, tornar seu mundo um verdadeiro martírio. Em desgraça, e constantemente humilhada por sua mãe, ela se torna ajudante de uma misteriosa ervanária (uma espécie de curandeira) que a ajudará a dar um novo propósito à sua existência. Assim, os três, largados à própria sorte, conseguem sobreviver, cada um à sua maneira.

E é assim que a narrativa se desenvolve, em torno das estórias dos três protagonistas, todas elas sendo contadas paralelamente até que, no ápice do enredo, os destinos de Arlen, Leesha e Rojer se entrelaçam em um caminho comum que os unirá e mostrará que as coisas não são o que aparentam e que, juntos, apesar de suas diferenças, angústias e desconfianças, talvez eles sejam a última esperança de sobrevivência da humanidade.

Apesar do contexto dark, esta é uma estória cativante, por vezes tão sugestiva que imaginar as situações criadas por Peter Brett nos faz imergir vividamente em sentimentos de angústia, indignação, medo, raiva, apreensão, o que evidencia o grande poder cinematográfica da obra. Além disso, fica evidente a natureza metafórica da narrativa que, muitas vezes, apresenta os demônios tal qual os obstáculos aparentemente intransponíveis que enfrentamos em nosso cotidiano. Ao fim, fica aquela sensação de que o problema não são os demônios, mas o medo infundado de enfrentá-los em detrimento de, simplesmente, deixar tudo ao encargo da sorte (e da morte). Neste aspecto, o livro é maravilhoso e nos faz pensar muito além da fantasia de suas páginas.

Contudo, apesar dos incontáveis (e merecidos) elogios, houve aspectos que eu não gostei. Primeiramente, Peter Brett passa um bom tempo construindo seus personagens, inclusive os secundários. Até aí tudo certo! Então, quando estamos imersos nos cruzamentos das estórias, há cortes temporais abruptos, que levam, por exemplo, nossos personagens da infância para a vida adulta, ou de um dado momento para anos à frente, sem muitos detalhes. Isso atrapalha a leitura? Definitivamente, não! Trata-se mais de um estilo de construção narrativa do que uma falha. Mas, por motivação totalmente subjetiva, eu me senti um pouco incomodado com isso. Anthony Ryan, por exemplo, faz esse mesmo esforço de construção de personagens com uma maestria ímpar em Canção de Sangue (já resenhado aqui), mas sem distorcer a narrativa ou deixar “buracos” no entendimento de como os personagens se tornaram algo ou alguém.

Voltando aos personagens secundários, muitos deles são interessantíssimos e indispensáveis para entendermos os porquês de os protagonistas terem seguidos determinados caminhos e terem feito determinadas escolhas. No entanto, muitos deles que, vê-se, o autor teve muito trabalho para construí-los, simplesmente desaparecem ao longo da narrativa. No entanto, essa observação é, antes, a resultante de minha afobação do que de um deslize do autor. Como teremos muitos volumes pela frente, é normal que alguns personagens sumam e ressurjam. Certamente (pelo menos assim espero), Peter Brett os trará de volta aos holofotes em algum momento.

Nesse sentido, em entrevista recente, o autor, ao falar sobre A Lança do Deserto, segundo volume da série com previsão de lançamento para o início de novembro, aqui, no Brasil, relata que o novo título foi aquele que mais lhe exigiu em esforço emocional e intelectual no que diz respeito a ligar fatos e pontas soltas do primeiro livro. Portanto, estou certo de que minhas colocações se mostrarão infundadas já que perguntas deixadas em abertos provavelmente serão respondidas. O que é certo é que vem coisa muito boa por aí! E, aos que ainda não leram O Protegido, resta-me apenas dizer: leiam, enquanto “ainda há luz na escuridão”!

Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
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6 respostas para Resenha: O Protegido, de Peter V. Brett

  1. Ois Fábio,

    Deste lado do atlãntico já publicaram os 3 primeiros volumes e só posso dizer que é como Robert Jordan, vai melhorando de livro para livro, isto é está cada vez melhor e o final do terceiro volume tem mesmo uma cena que faz muito lembrar George Martin, ficamos sem saber o que aconteceu a duas personagens muito importantes do enredo😉

    Gostei muito da tua resenha, até me deu saudades o que posso dizer é que vais gostar MUITO dos seguintes🙂

    Abraços

    • Fábio Queiroz disse:

      Olá amigo Corvo,

      Fico muito feliz com sua contribuição. Só me deu mais vontade de ler a série. E, realmente, você não é o primeiro que diz que ela lembra A Roda do Tempo. Então, O Ciclo das Trevas tem tudo pra ser um épico.
      Abraços

  2. Maurilei disse:

    Depois de terminar a leitura deste ótimo primeiro volume da série, tenho comigo que como o Fiacha comentou acima, cada livro será melhor que o anterior.

    • Fábio Queiroz disse:

      Olá Maurilei. Tenho esta mesma expectativa. A primeiro livro foi realmente um belo presente para os amantes de fantasia, muito bom. O difícil vai ser aguardar até novembro para termos o segundo volume em mãos.

  3. Tá aí um livro que eu devorei! Peter V Brett encaixou cada pedacinho da trama com maestria, detalhou perfeitamente as proteções e os demônios. Gostei do modo como as histórias de Arlen, Rojer e Leesha se juntam no final.
    Se eu tô ansioso pro 2° livro? Não, imagina.

    Muito boa resenha, Fábio!
    Abraços.
    http://bravuraliterariablog.blogspot.com.br/2015/08/resenha-ciclo-das-trevas-o-protegido.html

  4. Fábio Albergaria de Queiroz disse:

    Olá, Phelipe. Muito obrigado por sua visita! O que mais gostei foi como Arlen passou de um garotinho para um ser quase sem humanidade, um sobrevivente brutal ao ponto de deixar para traz os sentimentos mais básicos. Muito bom. Agora é ver como acontecerá o embate entre os dois supostos Salvadores. Acho que vai ser épico!

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