Resenha: O Monstrologista, de Rick Yancey

O Monstrologista capaTítulo: O Monstrologista

Título original: The Monstrumologist

Autor: Rick Yancey

Publicação: 2011

Número de páginas: 472 páginas

Editora: Farol Literário

ISBN: 9788562525537

Queridos amigos viciados em livros, vocês, por acaso, saberiam dizer qual a ciência que estuda formas de vida geralmente malévolas aos seres humanos e não reconhecidas como organismos existentes, em especial aqueles considerados produtos da mitologia e do folclore? Não!? Pois bem, é a Monstrologia. Por conseguinte, monstrologista é aquele que se dedica a esta arte, digamos, estranha.

E é justamente esta figura intrigante, O Monstrologista, que dá nome ao primeiro volume da trilogia homônima de autoria do renomado escritor Rick Yancey, vencedora, em 2010, do Prêmio Michael L. Printz de literatura juvenil. Devo confessar, vergonhosamente, que não conhecia o trabalho de Yancey até receber um email promocional em que este título estava sendo oferecido a um preço muito convidativo. Apesar de, a princípio, ficar um pouco reticente, resolvi dar uma chance ao livro, até porque o custo-benefício valia muito a pena.

E que grata surpresa foi esse achado! O enredo, devo ressaltar, é interessantíssimo e vai muito além da fantasia, pois o questionamento ao qual nós somos induzidos ao longo da leitura é de natureza puramente filosófica: é possível determinar o momento em que o homem perde sua humanidade e se transforma, ele próprio, no monstro que persegue? O homem e o monstro são dois lados de uma mesma moeda?

Ficou interessado? Então, deixe-me, sem delongas, apresentá-los ao mundo de O Monstrologista. A narrativa gira em torno do enigmático Dr. Pellinore Warthrop, um renomado monstrologista, e Will Henry, um órfão de pai e mãe que fora acolhido como seu assistente. Warthrop, sempre reservado e obstinado, dedica-se, como dito, ao estudo de seres que as pessoas comuns jamais imaginaram existir. Contudo, ao receber a visita inesperada de um ladrão de túmulos na calada da noite, Warthrop se depara com o maior e mais perigoso desafio de sua vida, algo que lhe surpreendeu, mesmo com seus vastos anos de experiência.

Ao saquear o cemitério da cidade de Nova Jerusalém em busca de tesouros que lhe pudessem render alguns trocados no mercado negro, Erasmus Gray, nosso ladrão soturno, trouxe o corpo de uma jovem recém falecida à casa do monstrologista, mas isso não era tudo. Juntamente, como um parasita, havia um achado horripilante, também morto, atrelado ao corpo inerte: um Anthropophagi (antropófago), uma criatura supostamente mitológica, mas que, por um golpe do destino, fora colocada ao alcance de Pellinore.

Segundo narrativas (ou lendas) antigas, alguns delas rudimentares, trata-se de uma criatura oriunda da África, sem cabeça, com olhos nos ombros e boca no peito. Conhecida por seus hábitos selvagens, dentre os quais, o canibalismo e o insaciável gosto pela carne humana, ela poucas vezes foi vista, apesar do relato de sua suposta existência aparecer várias vezes nas obras de Heródoto, Plínio e Shakespeare.

Fonte: http://img12.deviantart.net/4b69/i/2004/338/c/c/tremorworks__anthropophagi_by_rachaelm5.jpg

Fonte: deviantart.net

Diante desse achado inesperado, nossos heróis (ou anti-heróis, pois às vezes os amamos, às vezes os odiamos, o que achei super legal) se lançam em uma aventura arriscada e cheia de reviravoltas em busca de respostas sobre o porque de esta criatura ter aparecido no Novo Mundo. E, então, ao encaixar as peças de um complexo quebra-cabeças, eles são levados ao trágico naufrágio do cargueiro Feronia, ocorrido durante a Guerra de Secessão dos Estados Unidos. À bordo, nada menos do que uma carga confidencial e letal: exemplares de Anthropophagi trazidos à América por Alistair Warthrop, pai de nosso protagonista.

Surgem, então, várias dúvidas e dilemas morais. Por que ele faria isso? As macabras mortes que assolavam Nova Jerusalém teriam alguma ligação com este misterioso episódio? Em torno destas questões, o autor traz à tona uma discussão que permeou o cenário mundial no início do século XX: a eugenia, uma pseudociência que defendia a premissa de que a raça humana poderia ser melhorada ao se incentivar o nascimento de indivíduos mais notáveis ou mais aptos a partir do cruzamento entre os melhores exemplares da espécie, ao mesmo tempo em que se deveria desencorajar o nascimento dos inaptos. Chega, senão vou dar spoilers!

Mas, antes dos finalmentes, tenho que ressaltar o que mais gostei neste livro: sua incursão pela natureza sombria do ser humano. Aos poucos, a questão em torno da existência de seres mitológicos vai cedendo espaço a uma discussão mais profunda sobre os limites morais do que somos capazes de fazer em nome daquilo que acreditamos ou queremos, o que me levou, ao fim, a questionar quem realmente era o monstro na estória.

E, aos que se interessaram pela obra, vale dizer que os outros dois livros da trilogia – A Maldição do Wendigo e A Ilha de Sangue – já foram lançados no Brasil, portanto, dá para lê-los de uma sentada só, sem ter que passar pelo drama, tão comum aqui em terras tupiniquins, de ter que aguentar aqueles intermináveis intervalos que separam uma obra de sua continuação, às vezes por pura falta de respeito ou incompetência de certas editoras.

Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
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6 respostas para Resenha: O Monstrologista, de Rick Yancey

  1. fiacha disse:

    Viva Fábio,

    Pela resenha pelo que percebi vale bem a pena ler e estou de acordo que seja publicado os restantes livros o mais rápido possível para a malta que gostou deste não desanimar🙂

    Abraço

    • Fábio Queiroz disse:

      Olá amigo Fiacha!!!! Não sei como as coisas funcionam por aí, mas deste lado do Atlântico é comum ficarmos à deriva, à espera da boa vontade de algumas editoras que, simplesmente, ignoram seu maior patrimônio: os leitores. Assim acontece com a série Mistborn; com o Ciclo Nessântico; a série A Sombra do Corvo…são inúmeros exemplos de descaso e falta de respeito, pois, sequer um “não vamos publicar” ou “não sabemos” eles são capazes de dizer.

  2. Barbara M. disse:

    Que incrível! Sério, depois dessa resenha, posso dizer sem dúvidas: preciso ler urgente! Essa temática é de muito interesse para mim, gosto quando encontro mais livros do gênero😀

  3. Fábio Queiroz disse:

    Oi Barbara. Olha, gostei tanto do primeiro livro que já encomendei os outros dois. E, sem dúvida, se a sequência seguir esta mesma linha tem tudo para agradar de mão cheia. Depois que vc ler, dê uma passada aqui para compartilhar suas impressões,

    Até e obrigado pela visita!!!!

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