Resenha: Portões de Fogo, de Steven Pressfield

Portões de Fogo capaTítulo: Portões de Fogo

Título original: Gates of Fire

Autor: Steven Pressfield

Publicação: 2000

Número de páginas: 393 páginas

Editora: Objetiva

ISBN: 8573023082

Épico! É a única palavra que me vem à cabeça para descrever Portões de Fogo, a ficção histórica do genial Steven Pressfield que recria, com maestria e muita sensibilidade, a atmosfera de um dos confrontos mais incríveis e sangrentos da história humana: a Batalha das Termópilas, ocorrida no ano 480 a.C, entre gregos e persas.

Esta é uma narrativa não apenas sobre heróis e reis, mas também sobre a luta anônima de homens simples que – em defesa de princípios que deram origem ao que viria a ser a democracia ocidental – deram suas vidas no campo de batalha, segundo o historiador Heródoto, “com mãos vazias e dentes”.

É, então, tendo como pano de fundo a cinematográfica invasão de Khsha-yar-shan (ou Xerxes), o grande Rei da Pérsia, com cerca de 2 milhões de homens, às Termópilas ou Portões de Fogo, como eram conhecidas, que somos magistralmente conduzidos por Pressfield às linhas de frente da defesa grega que contava, unicamente, com trezentos soldados de Esparta – a maior cidade-estado da Grécia antiga – em um esforço de resistência desesperada, quase suicida.

Por meio uma narrativa entremeada por diferentes pontos de vista, tanto dos principais protagonistas da batalha, como, também, sob a perspectiva de vários personagens ficcionais muito bem desenvolvidos, Pressfield nos mostra com notável nitidez os detalhes que muitas vezes se perdem nos registros da história: os momentos de medo, aflição, dúvida, coragem, desespero diante da morte iminente ou, mesmo, simples fatos do cotidiano, afinal, estamos falando de seres humanos, com suas qualidades, mas, também, fraquezas e limitações.

E, ao explorar habilmente todos estes aspectos, a narrativa torna-se tão intensa e bem construída que, por vezes, temos a sensação de estarmos ombro a ombro com Leônidas, o rei espartano que, fazendo jus às lendárias virtudes militares de seu povo, liderou a resistência até o derradeiro momento em que, então, perde sua vida em combate. No entanto, seu sacrifício abriu o tão almejado caminho para que os gregos se reorganizassem e, naquele outono e primavera, derrotassem, enfim, os persas nas Batalhas de Salamina (480 a.C) e Platéia (479 a.C).

Em suma, este é aquele tipo de livro que agradará em cheio aos fãs de narrativas históricas ao estilo de Bernard Cornwell (As Crônicas de Artur; As Crônicas Saxônicas; 1356, dentre outros) e Conn Iggulden ( série O Imperador; série O Conquistador). Ademais, sem querer entrar em campo minado, mas já entrando, arrisco-me a dizer que Pressfield é – na minha opinião, deixe-me ressaltar – o maior autor de ficções históricas da atualidade. Se você já conhece o trabalho de Pressfield sabe muito bem o que estou dizendo, se não, recomendo fortemente que dê uma chance a este escritor fenomenal. Certamente, você será recompensado com um texto poderoso e vívido, que te envolverá até a última linha.

Por fim, devo dizer que o final, arrebatador, nos traz uma experiência muito peculiar que somente os livros de grande calibre, como é Portões de Fogo, conseguem proporcionar. Sabe quando terminamos uma leitura, mas as imagens das cenas descritas insistem em permanecer na memória, como se estivéssemos trazendo constantemente à tona as lembranças de alguém – ou algo – muito querido e estimado? Pois bem, este é exatamente o caso. Portanto, amigos viciados em livros, caso vocês naveguem pelas monumentais águas das obras de Pressfield, dê uma passada aqui, em nosso blog, para compartilhar suas impressões.

“De todos os espartanos e théspios que combateram com bravura, a maior prova de coragem foi dada pelo espartano Dienekes.

Dizem que antes da batalha um nativo da Trácia lhe disse que os arqueiros persas eram tão numerosos que, quando disparavam seus arcos, a massa de flechas bloqueava o sol.

Dienekes, no entanto, completamente impassível diante da força do exército persa, comentou: Ótimo. Combateremos à sombra”.

Heródoto, História.

Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
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12 respostas para Resenha: Portões de Fogo, de Steven Pressfield

  1. vagnerstt disse:

    Um dia lerei, está em algum lugar da lista interminável de sempre! o/

  2. Aires disse:

    Já li o livro e concordo com o Fabio. Sobre o mesmo tema recomendo o livro Salamina, de Javier Negrete, que aborda o evento de uma forma mais ampla até a final batalha de Salamina, a maior batalha naval da história. Ainda sobre o tema, recomendo ainda o livro “A Batalha de Salamina”, de Barry Strauss, este mais específico sobre as trirremes atenienses utilizadas na batalha. Livros excelentes.

    • Fábio Queiroz disse:

      Olá Aires! Já vi que vc também curte bastante história né! Somos do mesmo time então. Além de Portões de Fogo, no Brasil, Pressfield publicou os igualmente excelentes Tempos de Guerra; A última Amazona; Campanha no Afeganistão e Caçando Rommel. Quando ao Barry Strauss, concordo plenamente com vc. Ele é um historiador brilhante e A Batalha de Salamina é um livro espetacular. Aos que leem em inglês Strauss escreveu um livro impressionante: The Spartacus War. sobre a improvável revolta dos escravos, capitaneada pelo rebelde Spartacus, que desafiou Roma no ano 73 aC.
      Obrigao pela visita ao nosso blog. Abraços,
      Fábio

  3. Um dos meus livros prediletos!

    • Fábio Queiroz disse:

      Mais um do time dos que curtem História. Antônio, tô contigo e digo mais. Em minha opinião este é O LIVRO no gênero. Simplesmente único, apesar de Tempos de Guerra ter a mesma qualidade.

  4. Matheus Henrique disse:

    Um livro que há algum tempo procuro, porém está esgotado em todas as lojas, vou ter que comprar usado mesmo. Ótima resenha! Tão boa que parece que estavas lá. rsrs. Interessante o uso da palavra herói, li um comentário (em outro lugar) em que um rapaz diz que ‘não existem heróis, somente seres humanos’. Não podia estar mais errado. No dicionário Aurélio temos oito definições para a palavra herói, entretanto duas fazem mais sentido aqui: Pessoa de grande coragem ou autora de grandes feitos e Pessoa ou personagem de ficção que tem atributos físicos ou morais muito positivos. Assim, é possível alcançar tal posto, e temos diversos exemplos ao longo de tantos anos de história registrada, só citarei dois: Temístocles e Carlos Martel. Homens que por sua força moral atingiram grandes feitos que permitiram o mundo ocidental ser tal como hoje o é. O lugar mais justo do planeta dentro das limitadas capacidades humanas.

  5. Fábio Queiroz disse:

    Matheus, vc disse tudo, excelentes ponderações. Como dizer que uma pessoa que vive com um salário mínimo em um país com estagflação e corrupção endêmica não é herói?? Brincadeiras à parte, vc menciona o inigualável Temístocles, grande personagem da batalha de Salamina. Recomendo a vc o livro de Barry Strauss: A Batalha de Salamina. Nos dá uma exata dimensão do que representou Temístocles: um herói, apesar de sua personalidade, por vezes, questionável. e quem disse que heróis são perfeitos, não é ? Vc ainda encontra o livro no site Estante virtual. ABraço e obrigado pelo post.

  6. Esta obra já li duas vezes e ainda farei uma terceir leitura um dia. Guardei ora sempre! Boa demais!

    • Fábio Queiroz disse:

      Olá Fernando. Steven Pressfield é meu autor preferido no gênero das narrativas históricas e Portões de Fogo, em minha opinião, o seu melhor livro. Este é para se ter na estante e ler, como vc fez, mais de uma vez. Abraço e volte sempre com suas colocações. Abraço

  7. Wagner disse:

    Comprei o livro em uma Sebo, tendo por referência a obra em Quadrinho de Frank Miller Os 300 de Esparta. A obra tem um resultado incrível graças a pesquisa, construção dos personagens e enredo.Um dos meus autores preferidos no qual já embarquei na leitura de outras obras.
    Parabéns Fábio pela resenha e obrigado Aires pela dica do autor Barry Strauss.

    • Fábio Queiroz disse:

      Olá Wagner! O Steven Pressfield é um autor brilhante e todas as suas obras são espetaculares. O Barry Strauss é historiador, mas seus livros são tão incríveis que parecem uma ficção pela forma como ele escreve. É um dos meus historiadores favoritos ao lado de Eric Hobsbawn.

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