Resenha: Kingmaker – uma jornada no inferno, de Toby Clements

Kingmaker capaTítulo: Kingmaker: uma jornada no inferno

Título original: Kingmaker: winter pilgrims

Autor: Toby Clements

Publicação: 2015

Número de páginas: 574 páginas

Editora: Rocco

ISBN: 9788532529824

Kingmaker – saudado por muitos críticos literários como o grande romance histórico do ano – é o primeiro livro de uma série escrita por Toby Clements que tem como pano de fundo a emblemática Guerra das Rosas, disputa sangrenta pelo trono inglês ocorrida entre 1455 e 1485 que colocou, em lado opostos, as tradicionais casas de York e Lancaster, ambas originárias da dinastia Plantageneta.

Marcada por uma série de batalhas civis brutais, esta guerra, que submergiu a Inglaterra em um período de caos nas últimas décadas do século XV, foi o cenário escolhido por Clements para nos apresentar os protagonistas de sua trama: Thomas, um jovem monge, e Katherine, uma freira, que, ao serem perseguidos por um inimigo ardiloso, um nobre chamado Riven, tem que lutar desesperadamente por suas vidas. Neste ínterim, ao testemunharem a chacina de suas ordens religiosas pelas mãos de seu algoz não lhes resta outra opção senão a fuga, sem rumo, em pleno inverno, e os acontecimentos que se sucedem acabam os unindo de uma maneira inesperada.

O destino os leva a ingressar nas linhas de frente dos exércitos de Eduardo Plantageneta, conde de March e futuro rei Eduardo IV e, ao longo de um turbilhão de batalhas – Northampton, Mortimer’s Cross, Towton, todas elas recriadas magistralmente por Clements – eles se transformam em peças importantes neste jogo pelo poder, cada um a seu modo: Thomas como um hábil arqueiro, e Katherine, se passando por homem com o pseudônimo Kit, como uma espécie de médica (afinal, naquela época uma mulher não seria admitida em um exército a menos que na condição de prostituta).

E entre muito sangue derramado e massacres viscerais, por diversas vezes, Thomas, agora um homem moldado pelo fervor da guerra e que, praticamente, não guarda mais nenhum traço que lembre aquele clérigo de outrora, é movido por um desejo ardente de vingança contra Riven que, por sua vez, luta pelo deposto rei Henrique de Lancaster, considerado o elo fraco na cadeia de poder da Inglaterra sendo, por isso, deposto.

É então que a narrativa vai ganhando em complexidade e intensidade ao misturar ficção com realidade, ícones da história britânica com personagens ficcionais criados com maestria, todos eles interagindo de forma crível e plausível, em um enredo cheio de traições, batalhas sangrentas, reviravoltas inesperadas, dúvidas e, claro, uma dose de romance: todos os elementos esperados em uma boa narrativa do gênero.

Enfim, devo dizer que o livro me agradou bastante, apesar de não me surpreender tanto quanto eu esperava. Este primeiro volume deve ser analisado a partir de duas perspectivas distintas, porém complementares. Primeiramente, quanto ao seu teor histórico, a narrativa é impecável, uma recriação poderosa de eventos marcantes que somente um escritor do quilate de Bernard Cornwell, Steven Pressfield, Ken Follett e Conn Iggulden conseguem fazer. E Toby Clements o fez, com louvor! Sem dúvida, temos em mãos um presente aos amantes de História. Este estilo, porém, exige mais de seus leitores. Em outras palavras, aos que não conhecem minimamente a Guerra das Rosas, recomendo que, antes, procurem informações sobre o período. Vai ajudar bastante no entendimento da trama. Nesse sentido, Clements até nos dá uma mãozinha: ele nos oferece, logo no início do livro, uma genealogia das principais facções envolvidas na guerra, o que foi de muita utilidade, pelo menos para mim.

A outra perspectiva é da narrativa propriamente dita. Eu diria que ela é, apenas, razoável. Talvez pela parte histórica ser tão marcante. De forma alguma estou dizendo que a estória é ruim, nada disso, é que às vezes ela não acompanha a mesma qualidade do world building. Mas, como se trata de uma série, é normal, sobretudo em primeiros volumes, que a narrativa seja mais arrastada preparando, assim, terreno para algo muito bom. Eu, particularmente, gosto de obras que vão crescendo em intensidade ao invés de começar a 1000 por hora e ir perdendo o fôlego!

Outro ponto que merece menção: há vários fatos que, em minha opinião, deveriam ter sido explicados já neste primeiro volume, como o livro contábil que Thomas ganha de um clérigo e que se torna um enigma quanto à sua importância. Praticamente em toda a narrativa Thomas procura entendê-lo para, ao fim, simplesmente o livro sumir da trama (em termos de importância). Talvez eu quisesse demais para este momento, mas, certamente, terminar a leitura sem saber qual a sua real relevância foi decepcionante.

Bem, fica aí a dica de uma boa opção de leitura, sobretudo, aos que apreciam narrativas históricas intensas, porém mais cadenciadas quanto ao desenvolvimento dos personagens: Kingmaker!

Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
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4 respostas para Resenha: Kingmaker – uma jornada no inferno, de Toby Clements

  1. Tah na minha fila de leitura na estante! Eu preferi ele do que a serie da Guerra das Rosas do Igguldden para assim conhecer um novo autor. Depois de ler volto aqui pra fakar minhas considerações. Ah, o material ter sido escolhido curiosamente em capa dura ficou muito legal e a arte da capa é demais!

    • Fábio Queiroz disse:

      Olá Fernando, de fato a arte e o acabamento ficaram soberbos. Eu pretendo continuar lendo a série, apesar de Toby Clements não ser meu autor preferido no gênero, tampouco este primeiro volume. Por favor, volte para compartilhar suas impressões conosco. Forte abraço!.

  2. Comprei ano passado pela bagatela de 25 mangos. Tá na estante esperando a hora de ser lido, que pelo visto será mais breve do que eu pensava.

    Excelente resenha!

    Um forte abraço!
    http://www.bravuraliterariablog.blogspot.com.br

    • Fábio Queiroz disse:

      Olá Phelipe. Não sei se vc conhece as obras de Steven Pressfield, mas te recomendo vivamente este autor quanto ao gênero narrativo baseado em ficções históricas. esse cara é um gênio. Digo isto porque eu comparei Kingmaker com os trabalhos de Pressfield e a diferença é evidente. De qualquer maneira, Kingmaker também vale muito a pena.

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