Resenha: A Lança do Deserto, de Peter V. Brett

A lança do deserto capaTítulo: A Lança do Deserto

Título original: The Desert Spear

Autor: Peter V. Brett

Publicação: 2015

Número de páginas: 714 páginas

Editora: Darkside Books

ISBN: 9788566636758

Peter V. Brett é um dos autores mais aclamados da atualidade e não sem motivos, pois, sua série, Ciclo das Trevas, vem acumulando incontáveis elogios da crítica e, na mesma proporção, uma crescente legião de fãs em todo o mundo. Prevista para ser uma série de cinco volumes, dos quais quatro já lançados nos EUA, o segundo deles, A Lança do Deserto, foi publicado no Brasil no final de 2015 pela Darkside Books, o selo que detém os direitos da obra em terras tupiniquins.

Então, em primeiro lugar, se você ainda não conhece a série não perca tempo e leia o quanto antes o volume n.1, O Protegido, antes que seja adaptado para as telonas do cinema o que, inevitavelmente, acontecerá. Se está na dúvida quanto a lê-lo, há várias resenhas dele pipocando por aí, inclusive, claro, em nosso blog. Agora, se você já é iniciado no Ciclo das Trevas, o que dizer da Lança do Deserto?

Bem, ele é, simplesmente, incrível, soberbo, e, mantida a mesma qualidade narrativa nos outros volumes, a série, sem nenhuma dúvida, figurará entre as grandes obras de referência do gênero alçando Peter Brett ao panteão da fantasia ao lado de nomes como Tolkien, Brandon Sanderson, Robert Jordan, Patrick Rothfuss, dentre outros tantos mestres contadores de estórias.

A narrativa tem início com nada mais, nada menos, 244 páginas dedicadas a explicar como Ahmann Jardir – o antagonista e arqui-inimigo de nosso herói, Arlen Fardos, o Protegido – se tornou Shar’Dama Ka – O Salvador – das tribos reunidas do deserto de Krasia. Eu, particularmente, gosto bastante destas divagações retrospectivas, mas desde que feitas com cuidado para evitar remissões desnecessárias que acabam tornando a leitura chata. E tudo o que a leitura não é, é chata! O worldbuilding em A Lança do Deserto é feito de forma muito semelhante ao método utilizado por Anthony Ryan em Canção de Sangue (primeiro volume da série A Sombra do Corvo), outra obra maravilhosa que soube construir com muito esmero e eficiência um mundo novo e inovador.

O sistema de magias, (só comparável, em originalidade, à alomancia da série Mistborn) as classes de demônios que assolam a humanidade, a cultura krasiana, seu sistema de castas e a forma como essa sociedade evoluiu em meio a condições extremas são elementos fantásticos e que prendem a atenção do leitor. E o mais legal é que chegamos ao fim desta primeira parte “quase” gostando e torcendo por Jardir, pois o cara é, simplesmente, incrível, complexo e magnético. Ele é tão foda quanto o Protegido que, devo dizer, contínua sendo um personagem enigmático e igualmente sedutor.

É então que, no ápice da epopeia de Jardir, a estória sobre um corte e volta sua atenção aos nossos protagonistas secundários – Roger e Leesha – para mostrar como estão as vidas de ambos passados os eventos conturbados do primeiro livro. Entremeando, assim, idas e vindas na narrativa, os pontos de vista dos diferentes personagens vão ganhando intensidade e se cruzando de maneiras impensadas. Revisitamos vários personagens deixados pra trás em O Protegido, mas trazidos aos holofotes novamente, e desempenhando papéis marcantes, cada um a seu modo.

E aqui me permitam uma breve pausa para dizer que, a partir destas intermitências, o livro ganha contornos imprevisíveis. A estória é tudo, menos linear. Quando achamos que algo vai inevitavelmente acontecer, como uma morte ou um encontro, há guinadas inesperadas que nos conduzem por caminhos inimagináveis, alianças improváveis, reencontros emocionantes, só para dar a você, amigo viciado em livros, um gostinho de quero mais!

Outro ponto que nos chama a atenção é que, diferentemente do primeiro livro, aqui o foco narrativo não recaí sobre uma humanidade fraca consumida pelo medo do desconhecido, mas na complexidade da natureza humana, descrita em suas infindáveis facetas através de nossos personagens, o que nos faz, de bom grado, reféns da leitura. Não raras são às vezes em que nos vemos, como reflexos em espelhos, nos personagens que, tal qual nós, leitores, apresentam qualidades, mas, igualmente, diversas vulnerabilidades e fraquezas.

Por fim, outro ponto marcante é que, na medida em que o mundo começa a aprender como se defender deste mal imemorial – as Profundas e seus demônios – graças a Arlen, ele mesmo sem saber se é humano ou.. (ops! um quase spoiler!), surge uma nova classe de demônio, como nunca visto antes, uma ameaça real até mesmo ao Protegido e ao Salvador! E, então, em meio a uma batalha épica, o livro acaba … nos deixando com muitas perguntas em aberto: Jardir e Arlen são, realmente, faces de uma mesma moeda? Qual a real natureza de Arlen? E Jardir, é de fato o Salvador? Qual a origem e o poder da lança do deserto? Ufa!!!

Digo, sem nenhum exagero, que não há como parar de ler este tomo de mais de 700 páginas. Sabe quando você está tão imerso em uma leitura que quando as páginas vão passando, por maior que seja o livro, vai dando aquele aperto e tristeza, pois o fim da estória fica mais próximo? Pois é, esta foi a sensação que tive! No mais, resta-nos torcer para que a Darkside lance o terceiro volume desta série épica o mais rápido possível, o que, sinceramente, creio que acontecerá dada a impecável execução no planejamento desta editora até agora!

Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
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9 respostas para Resenha: A Lança do Deserto, de Peter V. Brett

  1. Roger Santos disse:

    esse ai esta na minha lista de leitura só acabar de ler a trilogia thrawn e vou atras do primeiro volume dessa serie,ainda estou no aguardo para quando vão ter a boa vontade lançar a serie malazan aqui no brasil

    • Cassy Teodoro disse:

      Roger, acho que Malazan sairá pela Arqueiro, agora que os livros da SdEBr serão publicados lá. Não se esqueça de conferir nossas resenhas da série aqui. Já postamos a resenha do primeiro livro e a do segundo eu posto em breve, só estou terminando outros livros pendentes. Abs e volte sempre!

  2. Fábio Queiroz disse:

    Olá Roger. Esta série vale cada minuto de seu tempo, é fantástica..e quanto a Malazan, bem, já virou novela mexicana.

  3. Maurilei disse:

    Gostei tanto de A Lança do Deserto quanto do livro anterior da série, mas ainda acho que fica atrás de A Crônica do Matador do Rei, Mistborn e Nobres Vigaristas.

    • Fábio Queiroz disse:

      Olá Maurilei. Olha, é bem difícil dizer, pelo menos pra mi, qual série é a melhor, sobretudo com tanto coisa boa surgindo. O primeiro livro dos Nobres vigaristas é, simplesmente, perfeito, um dos melhores que já li na vida. O segundo também é muito bom, mas o terceiro caiu um pouco. As Crônicas do matador do Rei arrebentam, a não ser pelo spin-off, A Música do Silêncio, que eu detestei. Não sei onde Rothfuss estava com a cabeça quando escreveu aquilo. Mistborn é de outro mundo, o primeiro livro é uma obra-prima, já o segundo achei um pouco maçante, não que seja ruim, mas o primeiro é de outro mundo: em minha opinião o grande livro da literatura fantástica na atualidade. Já a série Ciclo das Trevas está me agradando bastante, é verdade, talvez, um pouco menos que as obras q vc citou, mas, ainda assim, acho que ela tem tudo para se firmar entre os grandes. Abraço e volte sempre.

  4. Tô com ele aqui pra ler. Após terminar a trilogia A Primeira Lei eu pego ele. Expectativas lá em cima. Essa sua resenha quase me largar Antes da Forca pra começar a ler A Lança do Deserto… isso não se faz, rapaz! Huhauhhauhauhauhuahuha

    Um forte abraço,
    http://www.bravuraliterariablog.blogspot.com.br

    • Fábio Queiroz disse:

      Oi Phelipe. Muito obrigado pela visita. Vai valer cada segundo de seu tempo viu rapaz, a série é demais. Quanto à Primeira Lei, acredita que eu não gostei? Sei lá, não conseguir avançar na série! Não se esqueça de voltar aqui para compartilhar sua opinião quanto A Lança do Deserto. Abraço

  5. fiacha disse:

    Viva,

    Excelente comentário até fiquei com vontade de reler os livros, um dos grandes nomes da atualidade, quanto a mim e penso que este ano temos novidades😉

    Abraços

  6. Fábio Queiroz disse:

    Olá amigo Fiacha! Sentimos falta de seus comentários por aqui! Bem-vindo! Por aí, deste lado do Atlântico, vocês estão à frente com relação ao Ciclo das Trevas que é fenomenal. Espero que não demore muito o lançamento do terceiro volume! Abraços

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