Resenha: Exorcismo, de Thomas B. Allen

Exorcismo capaTítulo: Exorcismo

Título original: Possessed

Autor: Thomas B. Allen

Publicação: 2016

Número de páginas: 267

Editora: Darkside

ISBN: 9788566636987

Em 1973, O Exorcista, filme de terror adaptado do best-seller homônimo de William Peter Blatty (publicado em 1971), estreou nas telonas do cinema trazendo a perturbadora estória de uma garota de 12 anos que fora, supostamente, possuída por demônios. O filme, um estrondoso e instantâneo sucesso de público, viria a tornar-se o primeiro (e até o momento o único) do gênero a ser indicado ao Oscar.

Quem assistiu ao filme certamente nunca se esquecerá de suas muitas cenas repulsivas como aquela em que a personagem fictícia, Regan MacNeil, vira a cabeça completamente para trás ou quando ela desce uma escada de costas com as mãos e os pés apoiados nos degraus. O fenômeno exorcista fora tão intenso que as situações inusitadas ocorridas após a estreia do filme viraram objeto de pesquisas acadêmicas além, claro, de trazerem à tona o velho e atemporal debate entre religião e racionalidade, sugestão e realidade, bem e mal.

O fato é que muitos espectadores passaram a relatar pesadelos e sensações estranhas, e, em várias sessões, foram registrados surtos de histeria levando, inclusive, alguns cinemas a disponibilizar, em regime de plantão, enfermeiros e ambulâncias. Entre os primeiros espectadores do filme estavam dois sacerdotes: os padres William S. Bowdern e Walter Halloran, membros da ordem jesuíta da Saint Louis University.

Entretanto, o que poucos sabiam é que ambos não eram meros padres, mas protagonistas de um acontecimento aterrador: o suposto exorcismo de um jovem, em 1949, situação esta que serviu como fonte inspiradora para o livro de William Blatty e, por conseguinte, para o filme.

Amigo leitor, antes de adentrarmos na resenha propriamente dita, cabe aqui um breve adendo com o intuito de evitar uma confusão muito comum. O livro aqui resenhado não é o Exorcista, aquele que originou o filme, mas, sim, Exorcismo, de Thomas B. Allen, que é o relato não ficcional do evento de 1949, ocorrido em uma pacata cidade do Missouri, no meio-oeste dos Estados Unidos e que, como dito, serviu de inspiração para o filme.

Allen, além de entrevistas com as poucas pessoas envolvidas no exorcismo ainda vivas no momento de sua investigação, utilizou o diário escrito por um dos padres auxiliares de Bowdern em que são descritos, nos mínimos detalhes, os acontecimentos daquele aterrorizante episódio que fora mantido em segredo, por muito tempo, nos arquivos da Igreja Católica, em Saint Louis.

Bowdern fora, inclusive, procurado por Peter Blatty na ocasião em que este ainda coletava dados para seu livro, mas o padre, segundo relatos, recusou de forma muito educada a dar qualquer ajuda a Blatty, pois fora orientado pelo Arcebispo Joseph E. Ritter, seu superior imediato, a manter o caso longe dos olhos e da curiosidade do público, sobretudo, para manter a privacidade de Robbie, o jovem exorcizado (o nome verdadeiro do rapaz, assim como de toda sua família, é omitido no livro. Robbie fora usado como pseudônimo). Como salientado, o caso real refere-se a um menino. Mas para proteger ainda mais a identidade do jovem, e a pedido do próprio padre Bowdern, Blatty determinou que o personagem central de seu filme fosse uma menina.

Tábua Ouija

Feitas as devidas observações, devo dizer que a leitura é interessantíssima e, sem dúvidas, agradará ao público de vários segmentos: desde aqueles que gostam de fantasia e do gênero terror, passando, certamente, por aqueles que gostam do sobrenatural e chegando, incrivelmente, àqueles que, como este que vos escreve, são extremamente racionalistas e cientificistas, o que é raro em se tratando de literatura. O fato é que a obra, baseada em uma robusta pesquisa documental, é altamente sugestiva e conta com forte apelo visual. Não há como lê-la sem perpassar na memória as perturbadoras cenas do filme de 1973. Talvez isso se deva ao fato de sermos, implacavelmente, atraídos por aquilo que foge à nossa limitada capacidade de compreensão e percepção.

A narrativa estilo prosa contribui muito para a sensação de estarmos lendo uma obra de ficção, o que eu achei um ponto superpositivo. Por ser baseado em fatos registrados por uma testemunha ocular do ocorrido, temos a intensa e, por vezes, incômoda, sensação de estarmos ali, assistindo a tudo, o que muito contribuiu para criar uma atmosfera soturna.

O livro traz, ainda, uma reflexão muito interessante sobre as possíveis causas para a suposta possessão, o que tornou a leitura mais instigante. O texto relata que o exorcismo de Robbie foi estudado por psicólogos e vários acadêmicos jesuítas que chegaram à conclusão de que não houve no episódio evidências incontestáveis que comprovassem a manifestação do sobrenatural e que os eventos narrados – como objetos se movendo sozinhos, mudanças radicais na personalidade e nas características físicas da pessoa – apesar de não serem comuns, encontravam explicações plausíveis na ciência moderna.

Opiniões à parte, o que posso dizer, resumidamente, é que vivenciar, ao longo de 267 páginas, o pesadelo vivido por Robbie, na ocasião um jovem de apenas 14 anos, é uma experiência aterradora, o que fez com que muitos sentimentos aflorassem do livro, sobretudo, o de desespero frente a um problema sem respostas aparentes. Originalmente escrito em 1993, esta nova versão de Exorcismo, trazido ao público brasileiro pela competentíssima Darkside Books, nos brinda, ainda, com a reprodução das 24 páginas de conteúdo do diário de Bowdern.

Por falar na Darkside, não posso deixar de elogiar, mais uma vez, a qualidade da obra: capa dura, com um sugestivo tabuleiro ouija nas contracapas e um marcador de texto estilizado: simplesmente sensacional (gente, não recebemos nada pela propaganda, é simplesmente o merecido reconhecimento pelo zeloso trabalho de uma editora que preza pelo seu público). Então, fica aí uma excelente opção de leitura: Exorcismo! Até a próxima resenha!

Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
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6 respostas para Resenha: Exorcismo, de Thomas B. Allen

  1. Raquel Moritz disse:

    Eu costumo dizer que – sendo possessão ou transtorno psiquiátrico – o sofrimento do Robbie é evidente e cruel. Imagina passar por tudo isso por tanto tempo😦 Que dó. Ótima resenha, parabéns. :)))

  2. Fábio Albergaria de Queiroz disse:

    Oi Raquel. De fato, o sofrimento mostrado no livro é real e, por vezes, tão palpável que chega a causar certo incômodo em quem lê pois a vítima é uma pessoa comum, podendo ser qualquer um de nós. O fato é que, em situações como esta, na ausência de respostas imediatas,somos levados ao limite, ao limiar entre a racionalidade e o aparentemente inexplicável que, creio, foi o que aconteceu, muito embora eu concorde com as análises posteriores de que não havia nada de sobrenatural no que aconteceu, mas manifestações (raras, é verdade) do inconsciente humano que à época eram ( e, por conta dos limites da ciência, ainda são) difíceis de serem explicadas. Ahhh, e obrigado pela visita!

  3. Gislaine disse:

    Adorei o seu texto, fez com que eu sentisse ainda mais vontade de ler o livro (e a vontade já não era pouca, devo admitir).
    Gislaine | Paraíso da Leitura

  4. Fábio Albergaria de Queiroz disse:

    Oi Gislaine. Leia, sim, é super interessante e o estilo da escrita o faz parecer uma narrativa de fantasia, apesar de ser baseado em fatos reais…e muito obrigado por sua visita ao nosso blog! Se lê-lo, por favor, compartilhe conosco suas impressões.

  5. Pingback: Resenha: O Exorcista, de William Peter Blatty | .:.Dragonmountbooks.:.

  6. Helen disse:

    Aí,que medo😄
    Achei interessante o relato mostrar que foi estudado por psicólogos e acadêmicos jesuítas,parece bem completo e envolvente.
    A realidade consegue ser mais aterrorizante que a ficção~
    Não vejo a hora de ler.

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