Resenha: O Sorriso da Hiena, de Gustavo Ávila

Título: O sorriso da hiena

Autor: Gustavo Ávila

Publicação: 2017

Número de páginas: 264 páginas

Editora: Verus

ISBN: 9788576865940

O que determina o desenvolvimento da maldade humana? Seríamos condicionados por fatores externos, pelo ambiente que nos cerca, ou trata-se, afinal, de algo inerente à nossa natureza, incondicional e imutável? Essa é a principal questão que dá contornos ao surpreendente O Sorriso da Hiena, um thriller policial como poucos. Este é um daqueles livros que todo autor sonha em escrever, sobretudo, em se tratando de uma obra debutante. Em sua estreia na literatura, Gustavo Ávila nos brinda com uma obra grandiosa que, sem dúvida, já nasceu como um marco na literatura policial tupiniquim e que tem tudo para ladear os grandes best-sellers do gênero. Nesse sentido, eu o colocaria, sem pestanejar, ao lado de meus escritores favoritos, o dinamarquês Jussi Adler-Olsen e o espanhol Toni Hill.

A narrativa gira em torno de três personagens principais: David que – vinte e quatro anos antes dos eventos que dão início à trama central do livro – passa por uma experiência terrível ao ser testemunha do assassinato de seus pais, mortos com todos os requintes de perversidade imagináveis. Propositalmente deixado vivo pelo algoz que o obrigou a acompanhar todo o martírio a que foram submetidos seus pais quando ainda uma criança de apenas 8 anos de idade, David cresce profundamente marcado pelas indeléveis marcas de um passado que insiste em não abandoná-lo, moldando-o ao ponto de torná-lo um serial killer que replica em suas vítimas as mesmas circunstâncias porque passou.

É então que somos apresentados a William, um brilhante psicólogo de índole humanista (será???), que dedica parte do seu tempo a ajudar pessoas que passaram por eventos traumáticos, sobretudo crianças. Misteriosamente, certo dia, ele recebe um inesperado email de David fazendo-lhe uma proposta, digamos, inusitada. O serial killer mataria cinco famílias dando a William a chance de acompanhar o crescimento dos órfãos para, então, poder estudar a influência deste trauma em suas vidas adultas. A princípio atônito, e sem entender o que estava acontecendo, aos poucos William cede à curiosidade, ou melhor, à sua obstinada busca em comprovar suas teses sobre a natureza humana, e morde a isca lançada pelo nosso serial killer concordando com os termos propostos pelo assassino tornando-se, ainda que implicitamente, um cúmplice de tudo o que aconteceria doravante (gente, e, aqui, não há, spoilers. Todos esses fatos são mencionados logo nos primeiros capítulos).

Por fim, fechando o triângulo de protagonistas, temos Artur Veiga, um carismático e genial detetive, a estrela da 27ª Delegacia de Polícia da cidade. Apesar de ser portador da síndrome de Asperger, um tipo mais suave de autismo – o que o torna uma figura emblemática, por vezes cômica já que o convívio social não é uma de suas qualidades – ele tem uma capacidade de raciocínio incrível. Não tem como não gostar deste personagem, pelo menos comigo a empatia foi automática!

Pois bem, iniciada a série de assassinatos, de forma muito bem construída, os caminhos de Artur, David e William se cruzam de diferentes maneiras, criando uma atmosfera de suspense quase palpável tendo, como pano de fundo, uma análise crua dos labirintos da mente humana e das consequências dos atos que tomamos. Quando Artur é designado para investigar a onda de mortes iniciada por David em um jogo de gato e rato, vemos a psique humana assumindo o protagonismo nesta narrativa que consegue, facilmente, nos escravizar! Quando comecei a ler O Sorriso da Hiena estava com duas leituras paralelas, mas tive que abandoná-las, pois o desenvolvimento da história era tão atraente e viciante que eu precisava desesperadamente saber o que a próxima página (que logo virariam páginas) reservava.

Inicialmente publicada de forma independente, a obra de Ávila alcançou sucesso meteórico e, claro, chamou a atenção de muita gente, inclusive de uma grande emissora que já adquiriu os direitos para adaptá-la para a televisão, portanto, leiam logo O Sorriso da Hiena (afinal de contas, o livro é sempre melhor, não é mesmo!?). O final é coerente, muito bom e deixa um gancho para uma possível continuação. Fica aí a torcida para que esta seja apenas a primeira de muitas aventuras neste universo magistralmente criado por Gustavo Ávila e que nos convida, insistentemente, a refletirmos se, mesmo que por uma boa causa, os fins justificam os meios.

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Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
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4 respostas para Resenha: O Sorriso da Hiena, de Gustavo Ávila

  1. Clara Luar disse:

    Adorei a resenha! Adoro a capa desse livro e gostei da sinceridade ❤
    Também tenho um blog literário e adoraria receber sua visita!
    Um beijo! ❤
    (www.gentefazendolivro.wordpress.com)

  2. Fábio Albergaria de Queiroz disse:

    Oi Clara Luar! Muito obrigado pelo seu comentário e visita. Já vou passar lá para conhecer seu blog…e volte sempre.

  3. Bibbi disse:

    Estou muito curiosa (e temorosa) com a adaptação da Globo, é aquela coisa esperar o pior e torcer pelo melhor kkkkk.

    • Fábio Albergaria de Queiroz disse:

      Pois é Bibbi. O livro costume, na maioria dos casos, ser melhor que a adaptação. Há belíssimas exceções, claro, como o Senhor dos Aneis…mas, bem, é melhor ficar com o livro né que, este sim, é maravilhoso.

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