Resenha: Meio Rei, de Joe Abercrombie

Título: Meio Rei

Título original: Half A King

Autor: Joe Abercrombie

Publicação: 2016

Número de páginas: 281 páginas

Editora: Arqueiro

ISBN: 9788580415612

Em Meio Rei, primeiro livro da trilogia Mar Despedaçado, do excelente escritor britânico Joe Abercrombie, somos apresentados a Yarvi, o principal protagonista desta narrativa recheada de bons momentos de puro entretenimento e garantia de total imersão nessa aventura grandiosa.

Yarvi, o filho mais novo do rei Uthrik de Gettland, cresceu à margem das glórias de sua família por ter nascido com uma deformação em sua mão, o que o privou de seguir o caminho de seu pai e irmão como grandes guerreiros e cujos feitos eram celebrados e cantados em prosa e verso. Por isso, Yarvi não passava de motivo de piada e de uma mera sombra aos feitos de sua família.

Contudo, como ele próprio perceberá, uma guerra não é travada apenas com aço mas, também, com palavras. Sua incomum inteligência o levou a outro caminho, para ser treinado como possível ministro do reino, uma espécie de conselheiro. Bem, esse foi o caminho natural de sua vida…até que um fatídico evento mudou todos seus planos. Seu pai e irmão foram mortos em um suposto ato de traição perpetrado por parte de um povo inimigo que havia quebrado a tênue trégua imposta pelo Rei Supremo e, então, como único remanescente da linhagem real, coube a Yarvi assumir o Trono Negro que, por incontáveis gerações, fora ocupados por grandes reis e heróis.

À rainha Laithlin, sua mãe, e uma das personagens mais incríveis do livro, coube guiar seus passos rumo à vingança. É então que começa a saga de Yarvi, o meio rei! A narrativa é simples e muito direta (o livro tem apenas 281 páginas, o que não é muito para o gênero), o que não dá espaço para um worldbuilding muito detalhado mas, ainda assim, a estória me agradou em cheio pois, nesse sentido, praticamente em cada capítulo há um evento importante, sem enrolação.

Por sua simplicidade (e aqui, por favor, não entendam simplicidade como demérito) em um primeiro momento parece que temos em mãos um livro para o público YA, mas a obra, na hora certa, cresce em complexidade e intensidade, tudo na medida certa. Minha única ressalva é a insistência de Abercrombie em nos lembrar, a todo instante, que Yarvi é um merdinha, um homem pela metade, mesmo em seus momentos de triunfo, ratificando o valor da força física na cultura de Gettland. Ainda assim, é um recurso muito interessante (e totalmente justificável aos propósitos do livro), se usado com parcimônia, para nos aproximar do protagonista, contudo, em demasia, em alguns leitores poderá causar o efeito contrário.

O enredo é até meio clichê, com todos os elementos esperados de uma narrativa épica medieval: muito sangue, traição, batalhas, lágrimas, construção de laços de amizade, magia ancestral, enfim, tudo muito linear, mas nada que comprometa a leitura, muito ao contrário. Ela é tão cativante por nos apresentar personagens humanos, com medos, incertezas, momentos de dor, desespero e alegria que não há como não criar laços imediatos de empatia. Até o segundo terço do livro, com algumas exceções, a estória é previsível e muito provavelmente o leitor terá bons palpites de como tudo ocorrerá.

Mas é aí que entra toda a sagacidade de Abercrombie. A partir, mais ou menos, das últimas 80 páginas, todas as pontas soltas começam a se conectar com muita maestria, mas sem trivialidades, conduzi-nos a um desfecho surpreendente, muito bom, totalmente fora da linha condutora a que nos induziu a narrativa, o que me agradou bastante. Sem dúvidas, Meio Rei é uma obra inteira, um dos melhores livros que li neste início de ano e, espero, muito em breve, trazer a vocês, amigos viciados em livros, a resenha dos outros dois volumes: Meio Mundo e Meia Guerra.

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Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
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