Resenha: A Canção do Sangue, de Anthony Ryan

A Canção do Sangue capaTítulo: A Canção do Sangue

Título original: Blood Song

Autor: Anthony Ryan

Publicação: 2014

Número de páginas: 653 páginas

Editora: Leya Brasil

ISBN: 9788544100790

Imagine uma mistura de O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss, com Elantris, de Brandon Sanderson! Se você já os leu e, como eu, é fã destes mestres da literatura, então, vai aí uma dica de leitura imperdível: A Canção do Sangue, o primeiro livro da trilogia A Sombra do Corvo e, também, a estreia do escritor escocês Anthony Ryan na literatura fantástica. E que estreia!!!

A Canção do Sangue foi originalmente publicada de modo independente, e seus capítulos eram disponibilizados esporadicamente na web. Mas o sucesso foi tão grande e as críticas tão positivas que não tardou para que os direitos da obra fossem logo adquiridos mundo afora. Aqui no Brasil, a editora Leya é o selo responsável pelo livro. Por falar em editora, gostaria de começar esta resenha com os aspectos físicos da edição e o primeiro ponto positivo é a ilustração da capa, muito legal (e, sim, sou um daqueles que é comumente fisgado por uma boa arte, fazer o que!). As páginas são amareladas e a fonte da letra é média, o que proporciona ao leitor muito conforto para percorrer as 653 páginas desta obra (incluindo, ao fim, uma degustação do primeiro capítulo de O Senhor da Torre, próximo livro da série).

Mas nem tudo são rosas. O trabalho de revisão do texto deixou a desejar em muitos aspectos. Há várias palavras grafadas incorretamente e diálogos sem sentido, pois, transparece, claramente, que deveriam ser de outro personagem ao invés daquele a quem é atribuída a fala. Contudo, no geral, não chega a comprometer a narrativa, mas quando estes erros acontecem, eles saltam aos olhos. Neste aspecto, nota 8/10 para a Leya.

Dito isto, vamos, então ao que interessa. A narrativa nos apresenta a estória de Vaelin Al Sorna, um garoto que perdeu a mãe e aos 10 anos de idade foi abandonado pelo pai e deixado aos cuidados da Casa da Sexta Ordem, uma espécie de internato, onde ele é submetido a um treinamento brutal, tudo para servir ao Rei e à Fé (o nome dado à religião local), isso se sobreviver. Lá, ele conhece Nortah, Caenes, Barkus, Dentos, todos meninos que compartilham um destino semelhante: a de serem, por motivos vários, párias no meio em que vivem. Juntos, eles crescem, se tornam grandes guerreiros, cada um versado em uma habilidade específica de combate ou sobrevivência em condições extremas. E este é um aspecto interessante da obra, pois todos eles são personagens bem humanos, com fraquezas, pontos fortes e contradições morais. Nenhum deles é bom em tudo! Não há um super-homem, ou algo do tipo, o que eu considero super legal por nos aproximar mais e mais de cada um deles. É impossível não desenvolver empatia, por menor que seja, por estes moleques da Ordem.

A narrativa começa de trás para frente, com nosso protagonista (já um guerreiro experiente, marcado pelo peso de muitas guerras e mortes) acorrentado como prisioneiro, a bordo de um navio que o levará para um duelo de vida ou morte em terras longínquas. Nesta viagem ele é acompanhado por um cronista, Verniers Alishe Someren, a quem Vaelin, sugestivamente chamado de “O Matador da Esperança”, narra fatos por ele vividos desde sua tenra infância e que nos ajuda a entender como ele acabou nesta situação. Assim, a narrativa alterna-se entre momentos presentes (do protagonista) e seu passado, método que eu, particularmente, gosto bastante. Por conseguinte, boa parte do livro se dedica a explicar a formação de Vaelin e seus companheiros de Ordem. À primeira vista você, caro leitor(a), poderia achar que este é mais um daqueles livros descritivos intermináveis. E é aí que você, felizmente, se enganará. Primeiro, porque Vaelin é um cara muito sombrio e que nos encanta com os enigmas de sua existência, e, também, porque os personagens secundários, de secundários não tem nada. Todos, a seu modo, desempenham um papel muito importante na trama que é densa e repleta de cenas de ação arrebatadoras. Portanto, entender como cada um dos personagens foi moldado é um deleite.

Quanto ao nosso taciturno protagonista, na medida em que vai desenvolvendo suas habilidades, algo nele desperta, um poder inexplicável, a chamada Canção do Sangue, uma espécie de super 6º sentido. No desenrolar da trama várias dicas são dadas sobre o que vem a ser este dom (ou maldição), mas o autor não explica tudo sobre ela, o que certamente deve acontecer na sequência da trilogia. Neste aspecto, Vaelin lembra bastante nosso querido Kvothe, de O Nome do Vento, em sua busca incessante para descobrir como manipular um grande poder oculto.

Outro ponto habilmente explorado é a complexa relação existente entre política e religião. Este cenário muito se assemelha ao mundo criado por Brandon Sanderson em Elantris, só que com muito, muito mais ação e em um contexto totalmente dark. Em A Canção do Sangue há seis Ordens (e depois se descobre haver uma sétima) cada qual responsável por cuidar de um aspecto da Fé. A Sexta Ordem, por exemplo, é a “tropa de elite” do Reino pois, como dito, é ela que prepara os guerreiros que darão, de bom grado, suas vidas para garantir a defesa de preceitos morais e religiosos tomados como verdades incontestáveis. Só que, nos bastidores, o que impera é uma lógica totalmente maquiavélica onde a religião nada mais é do que um instrumento para que o Rei consiga seus objetivos. É neste enredo – em que os fins justificam os meios – que segredos inesperados são revelados e intrigas e traições impiedosas surgem, o que acaba impactando a vida de cada um dos personagens a seu modo, e aí….surpresa!

Enfim, o que dizer de A Canção do Sangue? Recomendadíssimo!!! A leitura, apesar das mais de 600 páginas, é fluída e nos prende da primeira à última página. Com uma cadência de tirar o fôlego, cheia de reviravoltas e ação sangrenta, o livro nos surpreende a cada página virada. Este é um daqueles livros que marcam e que vale a pena ter (apesar do precinho salgado: em média R$59,90 para livro físico e R$ 40, 99 para e-book).

Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
Esse post foi publicado em Fantasia e Ficção Científica, Resenhas, Romance e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

10 respostas para Resenha: A Canção do Sangue, de Anthony Ryan

  1. patrick disse:

    JUNÇÃO DO GRANDE PATRICKÃO COM O BRANDON!!!?
    DEUS SABE QUE JA COMPREI

    • Fábio Albergaria de Queiroz disse:

      Caro Patrick,
      Certamente vc não vai se arrepender! Boa leitura!

      • patrick disse:

        Li e o caps lock do meu comentário que pensei ter sido exagerado acabou n sendo porque realmente o livro é mt bom e me lembrou um pouco do final do segundo livro das cronicas do matador de reis apesar do acontecimento ser bem diferente

  2. Ois,

    Bem tenho mesmo que ler, nem que seja em formato digital, valeu fiquei com muita vontade de ler😉

    • Fábio Albergaria de Queiroz disse:

      Olá, Corvo! Eu sou suspeito para dizer que a leitura é mais do recomendável! Leia e depois compartilhe sua opinião conosco. Abraço

  3. Estou lendo esse livro no momento e gostei bastante até agora (65%). A escrita é bem “lisa”, digamos assim, e flui tranquilamente. Parei bem na parte que ele começa a sentir a canção do sangue, isso me lembrou muito o Uhtred quando ele vai para as batalhas nas Crônicas Saxônicas. Depois passo aqui para dizer o que achei do final e provavelmente farei resenha lá no meu blog também.

    Abraços e boa semana!

  4. Fábio Albergaria de Queiroz disse:

    Vagner, você está no ponto alto do livro. Muito sangue e intrigas ainda vão rolar. Depois passe por aqui para dar seu parecer hein!

  5. Pingback: Resenha: O Protegido | .:.Dragonmountbooks.:.

  6. Jones disse:

    Após ler os dois livros da crônicas do matador do Rei ( o nome do vento e temor do sábio), tve um pouco de dificuldade para encontrar alguns livros tão bons como tal , porém depois de todos os comentários aqui e em outros blogs acredito ter achado kkk , estou indo agora comprar este livro, os livro do Patrick já li duas vezes e estou aguardando o terceiro para ler de novo.

    Abços .

  7. Fábio Queiroz disse:

    Jones, vc não vai se arrepender, este livro é incrível. Vale muito a pena lê-lo, até porque o último volume da crônica do Matador do Rei vai demorar pacas pra chegar por aqui. Outra série que é espetacular é o Ciclo das Trevas que já tem os dois primeiros volumes, de 5, lançados. Volte aqui para compartilhar suas impressões conosco. Forte abraço

Por favor, deixem os seus comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s