Resenha: Condenada, de Chuck Palahniuk

Condenada capaTítulo: Condenada

Título original: Damned

Autor: Chuck Palahniuk

Publicação: 2013

Número de páginas: 303 páginas

Editora: Leya

ISBN: 9788580448207

Está aí, Satã, sou eu, Madison? Como um mantra de atendente de telemarketing (e eu vou explicar o porquê da analogia), assim começam todos os capítulos de ‘Condenada’, de Chuck Palahniuk, autor do aclamado “Clube da Luta” (lançado em 1996 e adaptado para as telonas do cinema em 1999, com Brad Pitt e Edward Norton no elenco).

Publicado no Brasil pela editora Leya, em 2013, Condenada é o primeiro título de uma trilogia daquelas. O que pensar de uma menina, Madison Spencer (na verdade, Madison Desert Flower Rosa Parks Coyote Trickster Spencer), de apenas 13 anos, filha de um bilionário extravagante  e de uma atriz de cinema narcisista e que, por conta de uma “suposta” overdose de maconha (isso mesmo, de maconha!!!) morre e vai direito para o inferno?

Este é o enredo da obra, as aventura e desventuras de uma adolescente que sofre de baixa autoestima (com todos os problemas típicos desta fase da vida) e que busca, a todo custo, obter a atenção de satã no inferno. Com um humor muito ácido (e põe ácido nisso) Chuck Palahniuk nos apresenta uma versão pra lá de dantesca do inferno. Imagine você, leitor, estar em um lugar onde há um mar de esperma desperdiçado ao longo de toda a história da humanidade, um pântano de abortos de semiformados, uma planície de cacos de vidro ou um lago borbulhante de fezes. Nada agradável, né?

Mas, não para nossa querida Maddy. Em sua estada pós-vida ela logo conhece uma líder de torcida que adora (ou finge adorar) produtos falsos; um super nerd, um jogador de futebol americano e um punk e, juntos, em busca de respostas que a ajudem a entender seus inúmeros dilemas, eles tocam o terror e, literalmente, me desculpem a redundância, infernizam o inferno (e a vida de alguns moradores ilustres como Adolf Hitler, Catarina de Médici e o imperador romano, Calígula). Em sua jornada, ela descobre que mesmo quando estava viva, sua vida, na verdade, era pior que a morte. Apesar de ter tudo que o dinheiro lhe pudesse proporcionar, ela não tinha o verdadeiro afeto de uma família. Apesar de estudar nas melhores escolas era tudo sempre muito artificial, pois, no fim das contas, ela era uma adolescente leitoa (segundo sua própria descrição) filha de pais extremamente ricos e hedonistas, nada mais, e as pessoas à sua volta simplesmente a suportavam por conta de seu status.

Assim, ao chegar ao inferno, ela busca em satã a atenção que nunca teve em vida e, morta, sente-se, pela primeira vez, viva! Que paradoxo, não! Ela até arruma um emprego por lá! Aqui tenho que explicar a você, que acompanha o blog, que ao receber um telefonema de um atendente de telemarketing ou ao ligar o seu computador e se deparar com um monte de banners pornográficos, em 85% dos casos é algum funcionário de satã, talvez a própria Madison, te atanazando para que você perca a paciência, ou clique aonde não devia, e fique cada vez mais próximo de engrossar a crescente lista deste condomínio, digamos, indesejável.

Ahh, e os motivos para ser condenado ao inferno?! Essa parte é demais. São várias as possibilidades para que você ganhe uma passagem direta, só ida: falar um palavrão que começa com p… mais de 700 vezes, buzinar mais de 500 vezes em toda a vida, dizer bicha ou negrinho mais de 300, urinar em mais de duas piscinas, deixar de lavar as mãos mais de 854 vezes após ir ao banheiro, soltar puns em mais de três elevadores diferentes, atravessar a rua fora da faixa de pedestres, só para citar alguns exemplos. Portanto, muitos de vocês, leitores (e aqui me incluo) já esteja com um pezinho (ou os dois) lá deste os cinco anos de idade!!!

Feitas as devidas advertências voltemos, mais uma vez, nossa atenção a Madison! Aos poucos ela vai se acostumando ao novo lar e se vendo cada vez mais como parte dele, e o mais interessante, de bem consigo, afinal, a velha adolescente rechonchuda agora é super popular e uma exemplar funcionária de telemarketing infernal. Tudo estava indo muito bem e a trupe de Madison se preparava para visitar o mundo dos vivos no Halloween, única época do ano em que isso era permitido (tipo um “saidão”, como nas penitenciárias brasileiras). Mas a situação começa a mudar quando fica comprovado que houve falha em seu teste de salvação (uma espécie de polígrafo que determina o grau de perversão de sua alma). Aí, quando Maddy menos espera, quem aparece? Ele, o próprio bode-preto, o tinhoso, o arrenegado, o capeta-mor, em carne e osso … ou melhor, em chifre e enxofre!! Nossa, e então … E, então, leiam o livro, pois a resenha vai chegando ao seu fim para evitar spoilers (revelá-los aumenta significativamente as chances de me tornar atendente de telemarketing ou designer de spam pornô à serviço do capiroto!).

Mas, em respeito a você, que acompanha o blog, vou me arriscar mais um pouquinho e trazer minhas considerações finais! Enfim, a escrita mordaz e cáustica, marca que consagrou Palahniuk, segue dando o tom da narrativa em Condenada. O livro faz uma crítica contumaz à fugacidade de uma vida despropositada e movida a aparências sugerindo, em diversos momentos, que a morte é melhor do que apenas viver assim. Só por isso, já vale a leitura. Vi algumas críticas que não eram tão positivas quanto ao livro. Talvez de pessoas de convicção religiosa mais tradicional (os comentários, geralmente, se referiam à velha dicotomia bem-mal, Deus-satã, céu-inferno), pois há uma grande chance de que se sintam incomodadas com as incessantes provocações de Palahniuk e, creio que, para estes, o livro talvez não seja a indicação mais recomendável.

Agora, eu, particularmente, adorei, e recomendo. Mas, antes de comprar o livro, leiam outras resenhas para que se sintam mais confortáveis quanto à escolha de lê-lo ou não. O que posso dizer é que a estória não é genial, tampouco um ícone da literatura fantástica, mas agrada bastante aos que querem uma leitura mais casual ou despreocupada. Diversas vezes me peguei rindo convulsivamente ante situações totalmente inusitadas e impensáveis. Ahh, e antes que eu esqueça, um último aviso. Ao ler esta resenha, você muito provavelmente esteja se credenciando como um forte candidato ao tormento eterno. Mas, se serve de consolo, o inferno, pelo menos o de Palahniuk, é melhor que muitos lugares por aí!

Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
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