Resenha: No Sufoco, de Chuck Palahniuk

No SufocoTítulo: No Sufoco

Título original: Choke

Autor: Chuck Palahniuk

Publicação: 2015

Número de páginas: 271 páginas

Editora: Leya Brasil

ISBN: 9788544102695

O norte-americano, Chuck Palahniuk, é um dos meus autores favoritos, não pela sua genialidade, até porque ele é bom, mas não excepcional: ele é, digamos, um cara dentro da média. O que chama a atenção em seus livros é sua contumaz crítica sobre alguns padrões do comportamento humano quanto a temas sensíveis como sexo, religião, morte, cultura de massa, etc. Palahniuk notabilizou-se por ser reconhecidamente um escritor de perspicácia mordaz e dotado de uma visão crua dos males contemporâneos. Sua obra-prima é Clube da Luta, um livro avassalador que logo virou um best-seller cult e que, dado o estrondoso sucesso, ganhou uma adaptação para o cinema com Brad Pitt e Edward Norton  nos papéis principais.

Desde então, Palahniuk vem lançando vários livros de sucesso, alguns deles já resenhados aqui como os hilariantes Condenada (2013) e Maldita (2014), os dois primeiros volumes de uma trilogia sobre uma menina que vai para o inferno supostamente após sofrer uma overdose de maconha revelando, pois, o grande apreço do autor pelo humor escatológico. Com o anúncio recente de que Clube da Luta 2 seria lançado, a Leya, editora que detém os direitos de publicação dos trabalhos de Palahniuk no Brasil, desta vez não dormiu no ponto e resolveu lançar vários livros do autor de uma tacada só: Sobrevivente, Clímax e No sufoco, este último o objeto de nossa resenha de hoje.

Imaginem, caros amigos, um cara sexólatra (viciado em sexo), marcado por uma vida cheia de frustrações que, para ganhar dinheiro e bancar o tratamento contra o Alzheimer de sua mãe, uma ex-vigarista que mal se lembra do próprio nome, aplica um golpe audacioso: em restaurantes refinados ele finge engasgar-se com a comida para deixar-se ser salvo por alguém. Após fazer isso centena de vezes, ele passa a receber regularmente cheques de seus supostos salvadores (ou melhor, vítimas) por sentirem-se responsáveis pela vida de nosso protagonista. Essa é a estória de Victor Mancini.

No bom e velho estilo de Palahniuk, este é um livro que mistura o bizarro com o absurdo para, ao fim, passar a mensagem de que para as coisas melhorarem, primeiro elas têm que piorar, e muito, pois, o caos e a felicidade são faces de uma mesma moeda. E nesta busca por sua identidade, pelo seu lugar em um mundo excludente e cruel, vemos a incessante procura de Victor pelas verdades sobre sua vida que, aparentemente, foram ocultadas por sua mãe, fatos estes que guardam segredos inimagináveis sobre sua concepção.

A narrativa é marcada por um humor negro, por vezes extremamente pesado e que pode ser bastante incômodo para alguns leitores desavisados sobre esta característica tão presente nos trabalhos de Palahniuk. É assim, neste contexto caótico, que ele descreve a vidinha medíocre de Victor, suas rondas aos grupos de sexólatras para tirar proveito das viciadas, seu monótono trabalho em um museu e as reminiscências de um passado de abusos e delitos em que ele, ainda criança, fora cúmplice de sua mãe, agora um quase vegetal, incapaz de executar as mais simples tarefas, como alimentar-se.

Ao ser confrontado com alguns fatos de seu passado, descobertos em um velho diário de sua mãe, seu mundo se transforma em uma verdadeira montanha-russa de emoções, em que ele é levado aos extremos da sanidade e da loucura. Neste ínterim, realidade e ficção assumem contornos impensáveis, conduzindo nosso protagonista ao limiar do caos total.

Bem, amigos, eu, apesar de gostar bastante deste tipo que leitura, que incita a reflexão e nos leva a sair da zona de conforto, fiquei um pouco decepcionado com No Sufoco. Dos livros que li de Palahniuk este é, sem dúvidas, o menos interessante. Significa que ele é ruim? Definitivamente, não! Mas, simples assim, não gostei tanto quanto eu achei que gostaria. Nos outros livros, com a mesma visão cruenta do mundo, é possível sentir empatia pelos personagens, se ver como parte das cenas inusitadas que só Palahniuk sabe criar. Contudo, em “No Sufoco” isso não aconteceu, pelo menos não comigo. A narrativa, apesar do inegável potencial, por vezes se torna chata e arrastada, quando não superficial. Talvez esta até fosse a intenção de Palahniuk, por assim dizer, criar esta sensação de mesmice tal como a vida de nosso protagonista. Mas acho que o autor exagerou na dose e, como resultado, nos entregou um livro que não compromete, mas também não empolga.

Enfim, Palahniuk continua sendo, para mim, uma grande referência, mas este não é um livro que eu recomendaria aos que ainda não conhecessem o autor ou que pretendem adentrar em seu mundo pontuado pelo caos. Clube da Luta, claro, seria o melhor cartão de visitas ou, aos que desejam uma leitura mais descompromissada e que estejam ávidos por boas gargalhadas, a série Condenada seria uma ótima pedida. Contudo, devo ressaltar, Palahniuk é um daqueles caras que em algum momento, mais cedo ou mais tarde, você tem que ler pois ele é uma raridade nos dias de hoje: parafraseando uma crítica do LA Weekly ele é “um autor que faz uso total dos potenciais alquímicos da ficção para sintetizar um universo que espelha nossa própria realidade, iluminando o mundo sem aniquilar o que ele tem de complexo”.

Sobre Fábio Albergaria

É professor universitário, darwinista convicto, colecionador de livros antigos e, claro, viciado em tudo que tenha papel, tinta e muita imaginação. Brasiliense de nascimento, mas elantrino por vocação.
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